segunda-feira, 6 de maio de 2013

ALÉM DA ESCRAVIDÃO




 Alice Mara de Araújo Teixeira Côrtes


Rio Paraíba,
rio antigo, tempo recuado, tempo que se foi.
Rio passado, passando, passa.
Rio limpo, puro, Puris e Coroados.
Rio encachoeirado, ilhas abraçadas.

Portugueses chegam, se achegam
- encanta o canto do sabiá.
Vêem o rio, a mata, o índio Puri.
Exterminam o gentio, derrubam a mata,
fica só o rio: lamento infeliz.

Permanecem os brancos colonizadores:
fitam o escravo que chega,
roubado, forçado, escravizado.
Ecoam lamentos na África
no mar, nas Gerais, no Brasil.

Aquele que chega é só sombra,
remete-se à memória guerreira tribal;
reage, luta pela liberdade,
encontra-se a ferros, sofrendo no tronco.

Desmaia o amanhecer, nesse de Deus;
caminham os escravos em fila,
trabalho, enxada, foice, machado,
derrubam mata, plantam café.

Sinhô, Sinhá acordam,
são os donos dos santos, donos da terra,
donos da vida dos escravos.
Falam por eles, matam por ela,
descansam por eles.

Negro Congo, palavra escrava,
tinham quase todas as mãos
que trabalhavam no Império;
misterioso, feiticeiro, tornou amigos
Orixás e Santos, transformando-os
em uma entidade só.

Mãos servas, voz submissa,
cozinham na casa grande.
Mãos calosas, labutam
nas plantações de café.
O Senhor rico compra mais negros,
compra brasão, torna-se barão.
Poderoso entre velas, sedas e rendas
ergue a taça.
O negro o machado “alevanta”,
corre a anta, o tatu a onça.
O feitor a chibata levanta,
açoita o negro-rebelde-preguiça.

Tarde voltam à senzala cansados.
Senzala lugar das ausências.
Perderam família, liberdade
roubaram-lhes a pátria,
sumiram com seu nome,
batizados cristãos viram João Nação.

Já é noite, a lua brilha crescente,
relembrança, herança da África,
negro dança, cantos de banzo,
cantos de saudade, cantos de oração.
A fogueira arde, a fumaça se eleva
levando pedidos ao céu.
Batem os atabaques e tambores
bamboleios entrelaçam cadências;
têm rituais a mais
usanças aos Oxalás.
Negros batem o pé descalço no chão.
Saravá a Exu,
elevam a cabeça, olhos fechados ao céu.
Saravá aos Oxalás,
levantam os braços ao céu.
Saravá a Iemanjá,
seus olhos se abrem, seus braços
que caem
e clamam: “Até já”
Alinhavei, alinhavei, furando os
panos que cobriam a vergonha.
Costurei retalhos negros de presença
em todo o Brasil.
Sou branca e pelos brancos peço: Perdão!...

 

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