domingo, 27 de junho de 2010

O ESPORTE EM ALÉM PARAÍBA

Por Mauro Luiz Senra Fernandes




Uma Fonte: Arthur Herdy Oliveira - 1934

Jamais teve a nossa cidade fobia pelos esportes. Os seus habitantes - os moços - mais de perto, mostram-se sempre afeitos a cultura física, em suas várias modalidades. Cidade ribeirinha, é natural que as preferências de seus habitantes se voltassem para o esporte náutico. Com efeito: com relação à natação, sempre houve quem a esse gênero de cultura muscular se dedicasse, embora nunca me lembre existisse aqui associação que controlasse, que reunisse os seus adeptos. Bandos de meninos, rapazes, senhores mesmo, se banharam no nosso majestoso Paraíba, deliciando-se, entregando-se a exercícios natatórios, às vezes com perdas de vidas de alguns mais afoitos.
O remo, também, teve os seus apreciadores mas, como a natação, os seus adeptos nunca se associaram para melhor se controlarem, como ainda se vê até hoje...
A primeira associação desportiva que surgiu entre nós foi organizada pelo saudoso Cândido Porfírio, se não me falha a memória, em 1898, e com o fito de concitar os alemparaibanos a praticarem o também não menos salutar gênero de desenvolvimento físico - o ciclismo. Ainda perdura na memória dos maiores de quarenta e cinco anos o que foram as corridas de bicicletas em nossa cidade, no campo da Ilha Recreio.
Em 1904, outro núcleo de moços tentou reerguer a “arte do pedal” na cidade onde ela tivera tão acolhida seis anos atrás e, como aconteceu com o primeiro surto esportivo, em menos de um ano a nova associação desportista foi-se por “água abaixo” por causas diversas...
Houve um pequeno hiato em relação à sociedade esportiva em nossa “urbs” até que, em 1905 ou 1906, um grupo de estudantes entre os quais os irmãos Taranto (Antônio e Carlos), os irmãos Laroca (Alexandre e Miguel) e outros rapazes locais, cujos nomes deixo de mencionar por ignorá-los, tiveram a primazia de serem os precursores do já famoso e querido jogo bretão, hoje tão bem assimilado pelos nossos patrícios, a ponto de o praticarem melhor do que os seus mestres do futebol.
Entre as várias associações (da primeira não refiro o nome por não ter conseguido informes certos) que desde aquela época (1905) foram criadas em Além Paraíba, destaco os seguintes (pedindo perdão aos leitores se omitir o nome de alguns): “Castello Branco”, “Além Paraíba”, “Operário”, “XPTO”, “Coríntians”, “América” e, por último, o “Comercial” e o “Bayne”, achando-se os dois últimos ainda de pé, em plena pujança, contando o primeiro oito anos e o último quatro anos. O que tem feito essas duas associações pelo esporte em nossa terra é desnecessário encarecer, pois está na memória e à vista de todos, haja vista as arquibancadas erguidas na praça de esportes na rua Capitão Varela, em Porto Novo, pelo Comercial e a radical transformação feita no campo do Bayne que, também, pretende implantar de vez o gosto pelos esportes aos alemparaibanos - isso tudo graças aos seus dirigentes que não têm poupados esforços e tenacidade.
Equipe do Colégio Além Paraíba x Seleção de Cataguases - 1941

terça-feira, 15 de junho de 2010

A CRISE DE 1929 E A REVOLUÇÃO DE 1930 EM ALÉM PARAÍBA

Por Mauro Luiz Senra Fernandes

A característica mais importante da crise de 1929 foi o seu caráter mundial. Iniciada nos Estados Unidos, em pouco tempo atingiu, praticamente, todo o mundo. Havia um grande número de países que mantinham transações comerciais com os Estados Unidos; essa dependência era mais acentuada nos países que recebiam empréstimos norte-americanos.

Os que mais sofreram foram os que tinham recebido capitais norte-americanos sob forma de empréstimos ou investimentos, já que de uma hora para outra eles foram retirados.

Nas décadas de 1920 a 1930, o café representava cerca de 70% da totalidade das exportações brasileiras, e os Estados Unidos eram os maiores compradores e consumidores do produto. A redução das importações por parte dos Estados Unidos, devido a crise de 1929, significou uma queda total das exportações do café brasileiro. O Brasil dependia principalmente das vendas de café no exterior para equilibrar a balança comercial.

Um fator interno veio agravar a crise no Brasil: durante muitos anos, os estoques de café vinham aumentando nos armazéns, já que no ano de 1906, quando houve superprodução, adotou-se a política de armazenar os excedentes para vendê-los nos anos em que a colheita não fosse tão favorável. O armazenamento foi feito com financiamentos de bancos estrangeiros, com garantia do governo brasileiro.
A crise de 1929 trouxe, além da diminuição do consumo, o abandono da política de estocagem, pois os bancos estrangeiros não mais estavam em condições de financiá-las, e o preço do café começou a cair. O valor do café exportado pelo Brasil passou a ser de somente 53% do total das nossas exportações.

Mas a crise de 1929 não afetou somente o café; os preços de todos os produtos primários foram afetados da mesma forma, reduzindo a receita das rendas da exportação e aprofundando a crise.

Mas a indústria, em geral, foi favorecida pela crise. Muitos capitais investidos na produção do café passaram a ser aplicados em empresas industriais. A crise econômica provocou a desvalorização da moeda brasileira, reduzindo sensivelmente seu poder de compra e tornando mais caros os produtos importados do estrangeiro. Isso estimulou a fabricação de produtos similares no país.

No Brasil, os setores mais afetados foram os que estavam ligados à exportação. Mesmo assim, muitos fazendeiros sofreram grandes perdas. Passaram a exigir do governo medidas para solucionar a crise, mas o governo mostrava-se incapaz de resolver o problema, perdendo com isso o apoio dos setores descontentes.
Até essa época, o principal apoio dos governos tinha sido a classe dos grandes fazendeiros e os proprietários. A busca de posição de classe abria o caminho para soluções radicais violentas. Alguns dos grupos opostos ao governo se uniram para derrubá-lo; Washington Luís, Presidente da República, em 1930, foi afastado e, no seu lugar, assumiu o poder, com apoio da Forças Armadas, Getúlio Vargas.

O motivo imediato da disposição de Washington Luís, na chamada Revolução de 1930, foi sua incapacidade de resolver os problemas criados pela crise de 1929. O governo de Getúlio Vargas resolveu a crise obtendo créditos para comprar uma vez mais os excedentes. Mas dessa vez, esses excedentes não foram armazenados. Uma pequena parte foi trocada por trigo americano, o resto foi queimado para manter o preço no mercado.

A Revolução de 1930

Foi um movimento político-militar que derrubou o Presidente Washington Luís em outubro de 1930 e acabou com a “Primeira República”, chamada pelos livros didáticos do ensino médio de “República Velha”, levando Getúlio Vargas ao poder.

A Crise da “Primeira República” – oligárquica – agrava-se na década de 1920 e ganha visibilidade e amplitude com a mobilização operária – greves (a classe operária era formada por brancos e imigrantes europeus com influência do socialismo e do anarquismo – havia racismo contra negros e nordestinos), as revoltas tenentistas (movimento das camadas médias do exército, descontentes com má política do coronelismo, contra o “voto-cabresto”, defendia o voto secreto e a modernização do Estado) e as dissidências políticas (em 1922 é fundado o PCB) que enfraqueceram as oligarquias, ameaçando a aliança entre São Paulo e Minas Gerais.

Em 1929, o Brasil começa a ser afetado pela crise da quebra da Bolsa de Nova Iorque que compromete o comércio mundial. Alegando defender os interesses da cafeicultura, o Presidente paulista Washington Luís, lança como candidato à sucessão o governador de São Paulo, Júlio Prestes, do PRP (Partido Republicano Paulista). Ao indicar outro paulista, rompe a política do “café-com-leite”, pela quais mineiros e paulistas se alternavam no poder. Em represália, o Partido Republicano Mineiro (PRM) passa à oposição, forma a Aliança Liberal e apóia o gaúcho Getúlio Vargas para a Presidência tendo o paraibano, João Pessoa como vice.
O programa da Aliança Liberal contém reivindicações das forças democráticas de todo o País, como a defesa do voto secreto e da Justiça Eleitoral. Mas, em março de 1930, seus candidatos perdem a eleição para a chapa oficial, formada por Júlio Prestes e pelo baiano, Vital Soares. A oposição começa a desmobilizar-se quando João Pessoa é assassinado, em crime passional. Os aliancistas atribuem motivos políticos ao crime e deflagram uma rebelião política-militar.

Chefiada por líderes aliancistas e tenentistas, a revolta é articulada entre o Sul e o Nordeste, e tem o apoio de diversos estados. Começa no Rio Grande do Sul, em 3 de outubro, liderada por Getúlio Vargas, Oswaldo Aranha e Góis Monteiro. Em seguida, irrompe no Norte e no Nordeste, sob o comando do tenentista Juarez Távora. Sem encontrar resistência, os revoltosos avançam sobre o Rio de Janeiro. Os ministros militares antecipam-se ao movimento e depõem Washington Luís em 24 de outubro.

No dia 3 de novembro, Vargas chega ao Rio de Janeiro e assume o Governo Provisório. Nomeia interventores nos estados, mas tem problemas para acomodar os interesses das forças que sustentam seu governo. Isso retarda as medidas político-institucionais, como a convocação da Assembléia Constituinte, provocando denúncias e manifestações públicas, algumas das quais se tornam revoltas, como a Revolução Constitucionalista de 1932.

A nova Constituição só é aprovada em 1934, após forte pressão social. Mas a estrutura do Estado brasileiro modifica-se profundamente depois da revolução de 1930, tornando-se mais ajustada às necessidades econômicas e sociais do País. O regime centralizador da “Era Vargas” estimula a expansão das atividades econômicas urbanas e o deslocamento do eixo produtivo da agricultura para a indústria, estabelecendo as bases da moderna economia brasileira.

A Revolução de 1930 em Além Paraíba

Sargento Batista

O Comando revolucionário defronte a Estação Ferroviária de Porto Novo

Além Paraíba foi um lugar estratégico na “Revolução de 30”, com o deslocamento de soldados vindos de todas as partes. Reservistas foram convocados para enfrentar as tropas legalistas, já entrincheiradas do lado de lá do caudaloso rio Paraíba do Sul, que separa Minas Gerais do estado do Rio de Janeiro, esperando apenas a ordem do comandante para atravessarem o rio e tomarem de assalto a cidade, reduto dos soldados revolucionários comandados pelo coronel Americano Freire, Major Lerac e outros. A cidade tornou-se uma praça de guerra, estabelecendo-se a interdição da ponte interestadual sobre o rio Paraíba do Sul, de trezentos metros de extensão e cinqüenta de altura, com assentamento de minas e sacos de areia. A qualquer momento, tudo poderia ir pelos ares, com estrondo das minas e das bombas sincronizadas em toda a ponte.


Foi uma época de muita tensão na cidade, notícias pelo rádio que punham a população sobressaltada, inclusive pela possibilidade de invasão – muitas famílias se refugiaram na zona rural, deixando a cidade quase vazia.


O soldados transitavam por toda parte, em movimento febril. Tropas militares de um lado e do outro do rio já tomavam posições estratégicas, esperando a qualquer momento a ordem de combate. A primeira vítima fatal dos tiros, vindos do outro lado do rio, foi um operário de obras na cidade – João de Castro – que retirava areia à margem do Paraíba, atrás da Estação Ferroviária de São José. Diz-se que o autor do disparo o fez por puro divertimento pois João de Castro não era soldado, nem se encontrava em ação de guerra – “Quer ver como se mata um homem?” – teria dito a alguém que se encontrava a seu lado. Pelo óculo de alcance da metralhadora fez pontaria e o tiro foi certeiro.

Nessa altura, estavam do lado de Minas, soldados entrincheirados a sete quilômetros, em gôndolas de aço da ferrovia, respondendo ao cerrado tiroteio das tropas adversárias, acampadas no outro lado do rio, quando uma bala inimiga bateu na borda da gôndola, ricocheteou e veio atingir mortalmente o reservista alemparaibano Oswaldo Francisco Lopes Tomazini, no dia 16 de outubro.

A situação estava cada vez mais tensa, pois a oficina ferroviária era alvo das tropas adversárias que aguardava o recebimento de um canhão como reforço a qualquer momento. Os trens expressos e mistos diários que transitavam à margem do rio Paraíba do Sul, vinham em grande velocidade pois eram atingidos pelas balas partidas das tropas acampadas do outro lado.

Nas Oficinas da Leopoldina, foi construído um canhão que foi entregue ao alto Comando que, imediatamente, o enviou ao local onde as forças antagônicas trocavam tiros. O primeiro tiro disparado pelo canhão acertou em cheio o edifício da Estação Ferroviária de Paquequer, que desmoronou-se, pondo os soldados em fuga. Houve, assim, a batalha decisiva que culminou com a vitória do lado de Além Paraíba. Não se sabe quantos tombaram nessa batalha, nem seus nomes, pois as fontes militares são muito discretas.
Com o fim da revolução, a cidade sofreu um duro golpe, com a perda de muitas vidas. Estava vitoriosa a revolução em todo o território nacional.

Ponte no Rio Paraíba do Sul próximo a Estação Ferroviária de Paquequer

No dia 3 de dezembro de 1930 houve, entretanto, um pavoroso desastre no local que mais tarde passaria a chamar-se Praça Getúlio Vargas, onde funcionava o comando das forças revolucionárias, sediado em Porto Novo, centro comercial da cidade. O paiol de munições, repleto de dinamites explodiu com tal intensidade que levou para os ares o próprio prédio do comando, de dois andares, inclusive dois prédios laterais, também de dois andares, provocando a morte imediata de, aproximadamente, trinta pessoas, vinte seis feridos – alguns falecidos em conseqüência do acidente. O Comando estava, exatamente por ter terminado a revolução, acertando as contas com todos aqueles que colaboraram com o movimento revolucionário, quer emprestando armas, animais ou fornecendo cereais e outros implementos requisitados pelo Comando e colocando as munições nos vagões para serem enviados para a cidade de Juiz de Fora. Conforme fonte oral, diz-se que, nesse dia, fazia-se um calor imenso na cidade, quando o Sargento Batista chamou a atenção do major Lerac, dizendo que a temperatura podia prejudicar o trabalho e colocava em risco a segurança do paiol de munições. O Major Lerac não aceitou o questionamento e mostrou para o sargento que ele era a maior autoridade do Comando. Além da explosão que matou populares no local, o cabo do bonde elétrico, de alta tensão, arrebentou-se, chicoteando no solo com descargas, ceifando ainda muitas vidas. Longe se escutou a explosão e viu-se o grande cogumelo de fumaça subindo pelos ares. O terror e o pânico apoderou-se da população: havia corpos estraçalhados por toda parte.

Cessado o pânico, foi feito o balanço das conseqüências e apurado o quadro de mortos e feridos. Entre os inúmeros mortos estavam: Major Lerac e sua esposa, o Tenente Mário Stewart, Antônio Moreira Júnior, Ludgero Moreira, o fazendeiro Álvaro dos Reis Villela e seu filho Milton, José Kalim Salomão, sua esposa, sogra e as filhas-meninas Ivone e Eny, Filadelfo Couto, o industrial Affonso Salvio, Acácio Lopes, José Martins Fortes, Alfredo Santero, os soldados Serapião Santos, João Laureano, Júlio Soares, Sargentos Marinho e Angenor Anspeçada Virgílio e o Tenente José Barroso. E, ainda, o menino Imanoel Batista, filho do combatente Sargento Batista, as meninas Iêda e Alda, filhas de Anibal Perácio. Mas, jamais se pôde precisar a quantidade exata, inclusive admitindo-se que inúmeros corpos despedaçados teriam sidos despejados no rio Paraíba do Sul pela explosão e nunca mais encontrados.

Jornal "Além Parahyba" - 29 de novembro e 3 de dezembro de 1931

Missa realizada na Igreja Matriz de São José em memória dos alemparaibanos mortos na Revolução de 1930.

Jornal "Além Parahyba" - 4 de outubro de 1931
Final da Revolução de 1930 - Chegada a Nova Friburgo, da composição ferroviária, trazendo, do município fluminese do Carmo as "forças legalistas" (derrotadas) do "Batalhão Galdino do Valle", que haviam ído ao município mineiro de Além Paraíba, para combater as forças rebeldes (vitoriosas), vindas daquele Estado.
Fonte: adaptação dos textos de Joaquim Moreira Júnior, Octacílio Coutinho e Dona Natanael Batista.

domingo, 6 de junho de 2010

DOUTOR HERÁCLITO FONTOURA SOBRAL PINTO

Por Mauro Luiz Senra Fernades



O Grande Cidadão Honorário de Além Paraíba

Faleceu aos 98 anos de idade, sendo o mais antigo advogado e defensor dos direitos humanos no Brasil. Católico e anticomunista fervoroso, Sobral Pinto surpreendeu seus clientes mais conservadores em 1936 ao assumir a defesa dos comunistas Luís Carlos Prestes e Harry Berger, líderes da fracassada rebelião apelidada de Intentona Comunista. Essa atitude seria compreendida no decorrer de seus 74 anos de carreira, em que ficou conhecido por uma eterna oposição aos governos autoritários e pela defesa ferrenha dos direitos humanos. Ficou célebre sua intervenção em favor do alemão Berger, enviado pelo Komintern para organizar o levante e massacrado pela tortura nos cárceres da ditadura getulista: Sobral Pinto recorreu à lei de proteção dos animais. Entre seus clientes alinharam-se desde outros comunistas de renome – Carlos Marighela e o escritor Graciliano Ramos – até o integralista Plínio Salgado.

Em 1955, criou a Liga de Defesa da Legalidade, cujo objetivo era lutar pelas eleições para Presidência, ameaçadas quando Juscelino Kubitschek e João Goulart entraram na disputa. Signatário de várias cartas abertas com críticas aos poderosos, Sobral Pinto foi preso em 1968 após a decretação do Ato Institucional nº 5, quando cunhou uma de suas frases mais famosas. Dirigindo-se a um carcereiro, segundo o qual o AI-5 pretendia o estabelecimento de uma “democracia brasileira”, fuzilou: “Há peru à brasileira, mas não há soluções à brasileira. A democracia é universal, sem adjetivos”. Paladino dos costumes tradicionais cristãos, Sobral era contra a censura aos meios de comunicação, mas defendia o embargo de peças de teatro e filmes que pudessem conter “imoralidades”. Na campanha das “Diretas Já”, em 1984, eximiu-se de cunhar frases e recorreu a uma definição conhecida, dita em voz trêmula: “Todo poder emana do povo e em seu nome será exercido”.

Feliz da cidade brasileira que pode se orgulhar de ter abrigado entre seus filhos, um homem da estatura moral de Sobral Pinto, o advogado mais brilhante que o país já conheceu no seu trajeto político.

A Família Sobral Pinto em Além Paraíba, em 1903. Da esquerda Rúbens, Idalina, Príamo, Natalina e Heráclito.

Quando aqui nos visitou em 1978 para receber o justo título de Cidadão Honorário ele contou-nos que, embora nascido em Barbacena, veio para Além Paraíba com um ano de idade, no final do século dezenove. Seu pai, sendo agente da Estrada de Ferro Central do Brasil quando mudou-se para Além Paraíba. Sua família foi morar no casarão localizado no pátio da Estação de Porto Novo e que dá fundos para a atual Rua Quinze de Novembro, onde nasceu alguns de seus filhos e irmãos de Sobral Pinto.

Seu pai Príamo Cavalcante Sobral Pinto, nasceu em Além Paraíba, na “Chácara Sobral”, onde hoje situa-se o Colégio Santos Anjos. Ele casou-se em Santo Antônio do Aventureiro no dia 2 de julho de 1880, com Idalina Augusta de Oliveira Fontoura - natural de Mar de Espanha.
Dr. Heráclito, era neto paterno de Luiz Sobral Pinto e Cândida Rosa de Albuquerque Cavalcante Sobral e neto materno de Fernando Gomes Caldeira Oliveira Fontoura Júnior e Gertrudes Pereira Monteiro Coelho.

Os estudos primários do jurista foram feitos em escola particular e depois em escola pública de Além Paraíba e, em 1907, internou-se no Colégio Anchieta, de padres jesuítas, em Nova Friburgo e não se sabe até que ano sua família ficou em nossa cidade.

JornaL a GAZETA DE 2 DE DEZEMBRO DE 1951
“E Barbacena, não me fala à alma como Porto Novo me fala, porque foi nele que a vida começou a ter sentido para a criança, que eu era então, e que Deus pusera neste mundo para cumprir uma missão, que, se tem sido, às vezes, de sofrimentos e agonias, nunca deixou de apresentar-se, também, sob aspectos de grandes consolações, bem superiores às manifestações da minha substancial mediocridade.
Enfim, nada quero prometer, para não faltar. Não veja, porém, no meu silencio, e na minha já tão prolongada ausência deste Porto Novo tão maior que o Porto Novo da minha meninice, senão medo de não suportar a saudade imensa e louca daquilo que se foi para sempre, e que nunca mais retornará.”
Dr. Heráclito Fontoura Sobral Pinto


Fonte: Adaptação dos textos da Revista Veja – 1991,“Barbacena – A Terra e Homem” de Nestor Massena, Sobral Pinto - A Consciência do Brasil de John W.F.Dulles e Arquivos da Igreja de Santo Antônio do Aventureiro-MG

Jazigo da Família do Dr. Luiz Sobral Pinto - avô do Dr. Heráclito Foutoura Sobral Pinto - Além Paraíba - MG





DOUTOR LUIZ SOBRAL PINTO - AVÔ DO DOUTOR HERÁCLITO FONTOURA SOBRAL PINTO

Dr. Luís Sobral Pinto, médico, nasceu por volta de 1818 no Estado de Pernambuco. Transferiu-se para a cidade do Rio de Janeiro, onde se casou com Cândida Rosa de Albuquerque Cavalcanti, filha de José Mariano de Albuquerque Cavalcanti, natural da Fazenda Pau Caído, em Santana, Ceara e Cândida Rosa de Melo e Albuquerque.

De seu matrimônio teve os seguintes filhos: Priamo Cavalcanti Sobral Pinto, Luís Sobral Pinto, Madalena Cavalcanti de Albuquerque Sobral Pinto, Amélia Sobral Pinto, Antônio de Albuquerque Cavalcanti Sobral Pinto e Cândida Sobral de Almeida Magalhães.

Provavelmente, era irmão do Dr. Manoel Sobral Pinto, natural do Estado de Alagoas, bacharel em Direito em 1834, pelo Curso Jurídico de Olinda (PE).

Dr.Sobral Pinto faleceu em Além Paraíba, Minas Gerais, no dia 19 de fevereiro de 1882, tendo sido sepultado no Cemitério da Irmandade do Santíssimo Sacramento.

Priamo Cavalcanti Sobral Pinto que nasceu em 8 de novembro de 1855, casou-se em santo Antônio do Aventureiro, MG, com Idalina Coelho Fontoura, filha de Fernando Gomes Caldeira Oliveira Fontoura Júnior e Gertrudes Pereira Monteiro Coelho e com quem teve os filhos: Heráclito Fontoura Sobral Pinto, Natalina Fontoura Sobral Pinto e Rubens Fontoura Sobral Pinto.

sexta-feira, 4 de junho de 2010

A EDUCAÇÃO EM ALÉM PARAÍBA

Por Mauro Luiz Senra Fernandes


Escola da Dona Minervina

A palmatória era o terror da meninada, especialmente nas sabatinas de tabuadas, quando os “bolos” eram distribuídos a granel. Bolos, varadas, puxões de orelha ou outros castigos, como passar a aula inteira de pé na frente da classe, com um livro aberto nas mãos. Isso quando a criança não era obrigada a escrever centenas de vezes – devido a um gaguejo ou a uma falha de memória – “devo decorar minhas lições até ser capaz de repeti-las corretamente”. E a maior parte do tempo passado na escola era gasto em repetições em voz alta, o principal “método” de ensino.

Com a mudança dos tempos, algumas escolas foram abolindo os castigos físicos e substituído-os por rígida disciplina. Surge, no começo do século vinte, uma nova pedagogia, em que a punição não mais se exerce sobre o corpo, mas sobre a “alma”, visando moldar o caráter dos futuros cidadãos. Nasce o tempo das suspensões de aula, do ficar de pé diante do quadro-negro, das listas de bons e maus alunos afixadas na parede.

Escola do Maestro Firmino Silva

Bons professores primários e músicos sempre se destacaram em Além Paraíba. Alguns eram as duas coisas: Firmino Silva, Vicente Serpa Duarte, Fausto Gonzaga, Manuel Batista Nunes de Souza lecionavam, tanto na cartilha, como na artinha.

De todos os professores primários nenhum consagrou-se mais do que Arthur Ferrão. Não era apelido – é nome mesmo ! Ferrão com todas as letras. Ele honrava as duas silabas. Inteligente, culto mas, sobretudo, enérgico como só ele. Estudante ali em sua escola não brincava porque a palmatória fazia bolhas nas mãos e os caroços de milho nos joelhos dos alunos, caso contrário, recebia uns bons puxões de orelhas.

Para aquele tempo, muito natural. E os pais gostavam. Ferrão ensinava mesmo, numa fama que só trouxe benefícios à cidade, a qual ganhou gente preparada cheia de saber, graças ao imortal mestre.

Desenvolvendo Educação

Colégio Americano, localizado no Bairro de São José

O ensino em Além Paraíba tinha conhecido dedicações nos esforços encetados através do Barão de São Geraldo, do Comendador Simplício José Ferreira da Fonseca, do Barão de Guararema, Cel. Luiz de Souza Breves, Cap. Vicente José Mendes Ferreira e outros interessados, inclusive, na fundação de um colégio local. Dentro dessa diretoria surgiu, em modestas proporções, o Colégio Americano, responsável pelas poucas inovações em matéria de educação e foi dirigido pelas dedicadas irmãs Araújo. Seu funcionamento restringiu-se a um pequeno período. Logo a seguir, foi criado o Colégio São José, de propriedade do Dr. Edelberto Figueira. Contando com um bom corpo docente, o dito educandário foi dando margens a uma justa aspiração de se transformar em um ginásio – dedicado ao ensino secundário. Eram seus professores – o Dr. Aristóteles Freixo Lobo (Promotor de Justiça), Fausto Gonzaga, Padre Cristóforo de Barros, o Dr. Edelberto Figueira (ex-Juiz Municipal) e as senhoras Joaquina de Almeida Santos Botelho (Pituta), Maria Luiza de Miranda e Claudina Mendes.

Em torno da idéia do ginásio, houve até mesmo uma campanha nos jornais da cidade: “Evolucionista” e “Gazeta de Porto Novo”.


Contando com homens de escol como Edelberto Figueira, Álvaro dos Reis Villela, João Paulo Teixeira Côrtes, Victor Henrique Galhardo, perfazendo um total de 95 subscritores, foi fundado o Ginásio Além Paraíba S.A., aos 22 de fevereiro de 1922.

Em sessão solene, foi eleito presidente o Dr. Alfredo Martins de Lima Castello Branco e diretor o Dr. Edelberto Figueira.

Com entusiasmo e abnegação, foi o prédio concluído, ainda naquele ano, pelo construtor português, Gustavo Ferreira da Cruz.

Com o correr do tempo, tornou-se indispensável aumentá-lo. Eis que surge, compreendendo a magnitude do problema, o casal Domingos de Andrade Villela e Dona Ormezinda Côrtes Villela, sanando a parte financeira.

Outros importantíssimos estabelecimentos de ensino surgiram: Escola Pública do Bairro das Oficinas, dirigido por Dona Joaquina Santos Botelho (Pituta); Escola Normal dos Santos Anjos; Grupo Escolar Dr. Castello Branco; Grupo Escolar Dr. Salles Marques; Lyceu Operário e Recreativo, mantido pela Estrada de Ferro Leopoldina; Externato Maria de Nazareth, dirigido pela Srta. Maria Marques, Colégio N.S. Aparecida; Colégio da “Dona Minervina”; e, em Angustura, o Grupo Escolar Barão de São Geraldo.

Outras escolas surgiram, nos anos 60. Idealizada, pela grande educadora Sra. Else de Deus Brandão Pimenta Ferreira, foi a instalação da CNEG, hoje Escola Cenecista Professor Sérgio Ferreira; depois o Ginásio Estadual São José, liderado pelo professor Salvador Vieira de Menezes e, em 1973, foi inaugurada a Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras Professora Nair Fortes Abu-Merhy pelo professor e advogado, Dr. José Alves Fortes.



Momentos do antigo Ginásio Além Paraíba - atual Colégio Além Paraíba


Grupo Escolar Salles Marques


Antigo SENAI de Além Paraíba - mantido pela antiga Rede Ferroviária Federal


Momento cívico dos alunos do antigo Liceu na Vila Laroca - mantido pela antiga Rede Ferroviária Federal

Adaptação dos textos de Nosso Século – Editora Abril e Octacílio Coutinho

INDUSTRIALIZAÇÃO EM ALÉM PARAIBA

Por Mauro Luiz Senra Fernandes


           “Preservar nossa história é como construirmos pontes que no possibilitam anular a distancia que nos separa daquilo que já fomos.

            É maravilhoso imaginar e sentir a vida daqueles que se foram e nos deixaram tamanha cultura e beleza.”


Vista de Porto Novo



No ano de 1906, o português Adão Pereira de Araújo instalou uma pequena usina geradora de energia elétrica. Antes dessa iniciativa Além Paraíba era iluminada à luz de lampiões que eram acendidos às 18 horas e apagados às 3 horas da manhã, ou melhor, da madrugada, daí os homens que os acendiam serem chamados de “lobisomens” ou “fantasmas”.

Com a energia elétrica veio a industrialização e, conseqüentemente, o progresso. Além Paraíba muda seu modo de produção, surgem inúmeras indústrias e, com isso, uma nova classe – a operária.
A primeira indústria instalada foi a Fábrica de Bebidas do italiano Nicolau Taranto, casado com a alemparaibana Carolina Alves Taranto, neta do Capitão Vicente Mendes Ferreira, proprietário da Fazenda da Cachoeira, em Vila Caxias, vereador no primeiro governo emancipado da cidade e maior acionista da empresa Carril Além Paraíba (bonde de tração animal).

O primeiro grande investimento que ajudou a mudar a cara da cidade foi a criação da CIAP – Cia. Industrial de Além Paraíba (Fábrica de Tecidos), fundada em 9 de dezembro de 1912, sendo seu primeiro presidente e fundador, o Dr. Alfredo Martins Castello Branco. Sua primeira diretoria era composta por Dr. Alfredo Martins Castello Branco, Sr. Acácio de Lima Castello Branco e o Capitão Miguel Laroca; e do primeiro Conselho Fiscal participavam os Srs. Antônio de Lima Castello Branco, José Pagano Brundo e Antunes. O capital inicial da Companhia era de 500 contos de réis. Posteriormente, em 27 de abril de 1972, a Companhia foi incorporada ao grupo Dona Isabel, passando à denominação de Cia. Fábrica de Tecidos Dona Isabel.


Vista da Fabrica de Tecidos em Porto Novo


Em 1925, com um capital de 700 mil contos de réis, surge uma nova indústria – a Fábrica de Papel Santa Maria, idealizada e fundada pelos Srs. José Mercadante, José Teixeira Bastos, Cel. Leonardo de Freitas, Dr. Antônio Augusto Junqueira e Affonso Sálvio; e, em 1933, a fábrica com 96 operários, produziu 2.800.223 quilos de papel de embrulho.


Inauguração da Fabrica de Papel Santa Maria - 1925


Surgiram também nessa época, pequenas mas não menos importantes, outras indústrias como: a Serraria Portonovense de Manoel Pereira, João Rozante, José Mercadante e outros; a Oficina Industrial Binato Ricardo – no ramo da metalurgia – considerada uma escola profissionalizante na cidade; a Fábrica de Móveis, que foi mais uma valorosa iniciativa e de propriedade dos Srs. José Mercadante & Cia.; Fábrica de Meias Iracy, mantida pela mesma empresa José Mercadante & Cia; Fábrica de Bebidas dos Srs. Teixeira Bastos & Cia; Fábrica de Massas sob o nome de “Pastificio Povoleri”, do Sr. José Povoleri; Fábrica de Manteiga e a Fábrica de Gelo, que pertenceram ao Sr. Adão Pereira de Araújo, a fim de facilitar e de possibilitar a sua grande distribuição de leite e creme para o Rio de Janeiro; Fábricas de Picolés, em Porto Novo, de propriedade dos Srs. Nabum Francisco e Jorge Elias Sahione, respectivamente, as de nomes Sorveteria Moderna e Sorveteria Polar; Marmoraria São José, do Sr. Adhemardo Gonçalves Salles, revelando nos seus trabalhos, muito gosto e perfeição; Fábrica de Fubarina, do Sr. Francisco Rezende; as torrefações de café: Café Castello & Cia, Café Aracy, de Cerqueira & Irmão e Café União, de Coutinho & Filho; Trituração de Açúcar, do Sr. Arthur Cardoso França; Tipografia Comercial, onde se imprimia o órgão oficial da prefeitura, o jornal “Além Parahyba”, da empresa José Mercadante & Cia; Tipografia São José, pertencente a empresa Jairo & Wilson – mais modesta, mas também, de obras – onde era impresso “O Combate”, órgão oficial do Partido Republicano Mineiro de Além Paraíba; Oficinas Mecânicas: Santa Helena, de Mercadante & Cia.; e outras cada uma pertencentes aos Srs. Gustavo Sorensen, Domingos Fernandes, José Augusto Moreira e Manoel Corrêa Júnior; Oficinas Marotta, com sortimento grande e variado de suas oficinas, pertencentes ao Sr. Luiz Marotta; Oficinas Santa Cruz, que aliada a uma boa serraria, funcionava a marcenaria do exímio oficial Sr. Gustavo Ferreira da Cruz, auxiliado por seus filhos hábeis operários marceneiros; a Fabrica de Refrigerantes, fundada pelo português José Jacinto Teixeira Filho (A Realeza); Fábrica de Ladrilhos, de propriedade dos Srs. Campos & Cia, fornecendo os bonitos e bem feitos ladrilhos para a nossa bela Igreja Matriz de São José; e sem falar nas grandes Oficinas da Leopoldina Railway, um dos maiores propulsores da vida de nossa cidade, que contava com diversas seções: ferrarias completas, torneiros, ajustadores, serralheiros, carpinteiros, marceneiros, pintores, fundições de ferro, aço e bronze, máquinas elétricas, etc.

Naquela época, Além Paraíba era um grande centro industrial de Minas Gerais, oferecendo oportunidades e qualificando profissionais de toda a região, sem falar da classe operária que era bastante politizada e forte. Atualmente, pouco resta do antigo crescimento industrial da Cidade – as poucas fábricas e oficinas que ainda restam, decaídas e vazias, só há o silêncio de suas máquinas e de seus apitos ou, então, o som das marretas e picaretas em atividade para a demolição e construção de habitações, como é o caso da nossa querida e saudosa “Leopoldina Railway”.




 

Fonte: Adaptação do texto do Almanack 1935 do Município de Além Paraíba, organizado por: Dr. Aristóteles Lobo, Raul de Carvalho Marques e Francisco de Carvalho Marques.

quinta-feira, 3 de junho de 2010

SOCIEDADE MUSICAL SETE DE SETEMBRO

Por Mauro Luiz Senra Fernandes


“Há no largo um jardim, no jardim um coreto, e no coreto, quando é Domingo, toda fardada e correta, a “Sete de Setembro” faz retreta. Em volta passeando, as garotas vão conversando, vão namorando...” – Columbano Faria Duarte

O povoamento de Além Paraíba iniciou-se em dois núcleos: São José e Porto Novo. O bairro de São José tornou-se a sede do município, onde seus moradores mais ilustres pertenciam à aristocracia rural; já Porto Novo, tornou-se um bairro burguês, onde foi desenvolvido o comércio.
A rivalidade entre esses dois núcleos vem de longa data, desde o surgimento da ferrovia. Em Porto Novo foi construída a bela e imponente Estação Ferroviária e a ponte sobre o Rio Paraíba do Sul e, em São José, foi construída uma pequena estação, não menos importante, e a magnífica Igreja Matriz.
O bairrismo era tão forte que os moradores participavam de todas as iniciativas que visavam dar aos bairros uma posição de melhor destaque. Em 1896, o assunto em voga era a criação de um grupo musical no bairro de Porto Novo, denominado Grupo Musical Carlos Gomes, provocando um sentimento de satisfação e orgulho por parte da população local.
Os moradores de São José sentiram-se inferiorizados com a liderança cultural e musical daquela localidade. A mobilização começou a acontecer, a comunidade toda foi contagiada. Após uma reunião na Praça Coronel Breves ficou deliberado que São José possuiria, também, seu grupo musical.
No dia 23 de agosto de 1897, na residência do Sr. Manoel Correia Júnior, foi criado o Grupo Musical São José e o seu primeiro regente foi o próprio Sr. Manoel. Decorridos seis meses de ensaios, os componentes já estavam aptos para as primeiras “tocatas”.
De Manoel Correia Júnior, outros regentes passaram pelo grupo musical, como Antônio Euzébio dos Santos, Nelson de Barros, Acir Figueiredo (vindo da cidade de Santo Antônio de Pádua por indicação do influente diretor João Pereira Filho). O grupo foi elevado à condição de Banda Musical, passando-se a se chamar Sociedade Musical Sete de Setembro, no dia 23 de junho de 1907. Naquela época, foi eleito o primeiro presidente da corporação, o Sr. Antônio Euzébio dos Santos.
Por volta de 1913, após uma reunião, o mestre Acir Figueiredo foi bastante criticado por alguns diretores insatisfeitos com o baixo rendimento da Banda. Recebeu as críticas com humildade e buscou aprimoramento.
Em 1914, Acir Figueiredo foi convidado para reger a Banda de Leopoldina, recebendo uma proposta que se tornou irrecusável e, com isso, transferiu-se para a vizinha cidade. A situação da Sociedade estava muito difícil financeiramente e, com o afastamento do maestro, ficou pior.
Surge Tolentino Oliveira que, durante dois anos, permaneceu à frente das atividades com indiscutível brilhantismo.
Levi Reis Rodrigues, vindo da cidade de São João Del Rey para regência do coral da Igreja Matriz de São José, foi convidado também para reger a Banda Sete de Setembro na mesma ocasião. Aceitou o cargo e, com muito brilho e a inteligência que lhe era peculiar, ficou de 1917 a 1919, quando foi assumir o cargo de escrivão na vila rural de Angustura.
Acir Figueiredo, vindo passear e rever os amigos na cidade, tocado pelos apelos feitos, não se fez rogado e aceitou retornar ao cargo de maestro, no qual manteve-se até 1926.
Desde 1921, Dr. Jarbas Salles Marques vinha no comando da presidência da Sociedade Musical Sete de Setembro e, com os demais membros da diretoria, elegeu o Sr. Euclides Vasconcelos Barbosa - o “Mestre Tita”- para reger o corpo sinfônico, atuando por mais de quatro décadas.
Com o apoio de “Mestre Tita”, o presidente Dr. Jarbas Salles Marques traçou um grande projeto: a construção da sede própria da Sociedade Musical Sete de Setembro, com a participação de toda a diretoria e, em 1928, foi concretizada a idéia: estava pronta a sede da Sociedade Musical.

Dois artífices foram destaques na construção da sede: Olimpio Pereira de Souza e Francisco Gomide. Era o sonho transformado em realidade.
Figuras femininas também foram destaques na história da banda, dentre elas: Hermínia Barbosa Fernandes, irmã do Mestre Tita; Lectícia Risoleta da Silva Mattos e a atual madrinha, Ana Mattos de Oliveira (Naná).

 A história registra pessoas importantes no desenvolvimento da Sociedade Musical Sete de Setembro, como: Joaquim Dias Moreira (Quinzoca), Walter Lobo, José Silveira, Francisco Sotero da Rocha, José Maria dos Santos Faria e muitos outros.
Nesta síntese, fica o singelo registro de uma vitoriosa história de um grupo musical que surgiu de um grupo de bairristas, fanáticos pelo seu bairro e que resultou na talentosa Sociedade Musical Sete de Setembro.







Fonte: Helio Costa

quarta-feira, 2 de junho de 2010

SOCIEDADE MUSICAL CARLOS GOMES

Por Mauro Luiz Senra Fernandes


"Coube ao Barão de Guararema fundar a mais antiga banda que figura na história alemparaibana. Era toda composta de ex-escravos que desfilavam descalços e a cabeça era coberta com chapéu de palha.” Octacílio Coutinho

A história da Sociedade Musical Carlos Gomes é uma história de perseverança e de vitórias. Tudo começou na casa de José Pinto da Silva, no dia 15 de agosto de 1896, constituindo-se aquela que viria a ser a mais duradoura instituição de Além Paraíba.
Para que isso fosse possível, é muito importante citarmos, além dos nomes que figuram nas relações de presidentes e de maestros, outros como os de Luiz Pinto da Cunha, Giovani Pianosi, Adalberto Araújo, José Gomes de Pinho, Serafim Mattos, Álvaro Antunes, Francisco de Mattos, José Macedo, José Bernardino de Paula, Cláudio Coutinho, Delfino Rocha, Mário de Castilhos, Manoel Affonso Fernandes e José Antônio Varela.

Foto da Sociedade Musical Carlos Gomes, na Estação Ferroviária de Porto Novo

Representando e honrando Além Paraíba no decorrer de um século, a Sociedade Musical Carlos Gomes, entre inúmeras atuações dentro e fora do município, foi o destaque de festa da Nossa Senhora da Penha, no Rio de Janeiro, em 1977, quando tocou para milhares de pessoas.
A história de uma banda é também a história da solidariedade, do espírito coletivo e do amor pela música. As bandas são as nossas orquestras de rua, símbolos dos sons que nos remetem à saudade dos tempos esquecidos ou que resgatam nosso orgulho, quando enchem o ar com a força de suas marchas e dobrados.
A Sociedade Musical Carlos Gomes carrega em seu nome a figura de nosso mais fecundo compositor clássico de todos os tempos. Quando ela passa, envolvendo ruas, janelas e praças, com suas percussões e seus metais, é hora de toda a cidade aplaudir, silenciando os nossos instrumentos, para que a Banda predomine, dando um toque lírico à mecanização dos tempos modernos.
Não é qualquer instituição que chega nessa idade, trazendo só alegrias para as pessoas.

Seus os principais maestros:
Firmino Silva, José Pinto da Silva, Octávio Pereira da Costa, Eraldo Silva, Nestor Monteiro, Wallace de Mattos, Jayme Dias Passos, Saturnino Silva, Newton Monteiro, Luiz Pinto da Cunha Júnior, Luís Gonçalves Ribeiro, Artulírio Alves Souza e Hamilton Carvalho Souza.
Seus principais presidentes:
Eurico Lopes Ferreira, Alfredo Bernardes, Francisco Aguiar, Antônio Medeiros, José Mercadante, Antônio Brum Costa, Leonardo Freitas, Henrique Dutra, Sebastião José Borges, José Pagano Bruno, Genaro Mello, Luiz Pinto da Cunha, Elpídio Henrique da Costa, Sinval Teixeira Rios, Otto Barroca, Wagner Calmon Gomes, Athayde Henrique de Souza, Aloisio José Borges, Francisco Gomes da Silva, Clinton Motta, Milton Júlio Carvalho Souza e o atual – Hugo Eduardo Rodrigues.


Fonte: Adaptação do texto do Conselho Municipal de Cultura em 1996

terça-feira, 1 de junho de 2010

HOSPITAL SÃO SALVADOR - Uma fonte: Dr. Paulo Joaquim da Fonseca

Por Mauro Luiz Senra Fernandes



O ano de 1895 foi de grande provação para esta cidade, debaixo do ponto de vista higiênico.
Desprovida de meios de defesa, sem água, sem esgotos, sem higiene pública e privada, indefesa, era natural que sofresse como sofreu, os efeitos desastrosos das epidemias de que foi vítima.

E nesse ano mortífero, foram três epidemias que aqui romperam.

A primeira – cólera morbus – a mais terrível pelo pavor que causa o enfermo que, muitas vezes falece em poucas horas depois de atacado pelo mal, cuja gravidade ele apresenta.

Seguiu-se a febre amarela que fez numerosas vítimas e, finalmente, a varíola, não menos terrível e apavorante do que as primeiras.

Incumbido pelo Governo do Estado (Dr. Paulo da Fonseca), naquela ocasião, de superintender os serviços de profilaxia e de combater a primeira e a terceira dessas epidemias, compreendi, pelas dificuldades quase insuperáveis com que lutei, que era materialmente impossível um ataque eficaz a qualquer morbus epidêmico sem hospitais de isolamento.

Fiz, então, construir barracões a fim de isolar os doentes conseguindo um melhor resultado. Mas gastava-se preciosíssimo tempo na construção desses barracões e, sendo assim, cheguei a conclusão que, durante quadras epidêmicas, despendem os Governos grandes somas na obra de combate ao mal que aflige à população; porém, com um único efeito, enterrar os mortos (Ilha do Lazareto).

Tal maneira de pensar que, então, externei francamente no meu relatório ao Governo do Estado.

Foi nessa ocasião que concebi a ideia de promover nesta cidade a fundação de um hospital que preenchesse inteiramente os seus fins, isto é, que pudesse receber e tratar doentes e que num dado momento pudesse, igualmente, servir de hospital de isolamento.

E assim, apelando para a grande generosidade deste povo – que não regateia simpatias e amparo a todas as idéias grandiosas – intentei a criação do hospital.

Um cidadão, já benemérito por muitos títulos e cujo nome se acha ligado a todos os melhoramentos que conta este município, o Exmº Sr. Barão de Guararema, veio igualmente amparar a nascente instituição subscrevendo o importante donativo de dez contos de réis, por si e por sua Exmª e piedosa esposa, a senhora Baronesa de Guararema. Já prestastes o vosso testemunho de gratidão a esse benfeitor, declarando-o sócio benemérito desta sociedade e determinando que seu retrato seja colocado no salão nobre do hospital.

Havendo começado os trabalhos do desaterro em 2 de julho de 1896, somente no dia 12 de outubro consegui colocar a primeira pedra do edifício principal, o que já representava uma grande soma de sacrifícios.

Abri, então, concorrência pública para a construção do edifício principal, depois de feito o orçamento pelo hábil engenheiro, Sr. Leon Gilson.

Dois concorrentes apresentaram-se – os Srs. E. Dafieno & Cia e José Lopes Ribeiro, com uma proposta, respectivamente, de 49.000$ e 46.000$. Naturalmente preferi a última que, além de mais vantajosa pelo preço, oferecia todas as condições de idoneidade.

Atacadas as obras em outubro de 1896, festas beneficentes aconteciam podendo, assim, sustentá-las até fins de 1897, quando se exauriram todos os recursos que até então foi possível adquirir.
A caridade é paciente e esperei. Até aí nenhum auxílio por parte dos poderes públicos foi concedido para a construção do hospital.

A mudança de situação política do município e os tristes dias de lutas estéreis que se seguiram, absorvendo todas as atenções, impediram a continuação das obras. Resolvi, então, mais tarde que, para interessar um maior número de pessoas no prosseguimento desse serviço e consultando os sentimentos religiosos da população e os meus próprios, fosse formada a Irmandade de Misericórdia, nos moldes de suas congêneres. Para isso, consegui uma reunião a qual compareceram muitas pessoas e organizamos, sob a presidência do digno e ilustre vigário desta freguesia, o Revmº Padre Carloto Fernandes da Silva Távora, o compromisso que foi remetido ao Exmº Sr. Bispo Diocesano, para a necessária aprovação. Por infelicidade, bastante demorada foi a solução provinda de S. Exª. recusando a aprovação solicitada para o compromisso, que somente mereceria o seu placet (petição judicial), caso lhe fossem feitas alterações profundas, a que não quiseram sujeitar os associados.
Foi, então, resolvida a fundação de uma sociedade civil e, em assembléia extraordinariamente concorrida, realizada no Paço Municipal em 2 de novembro de 1902, sob a presidência do nosso prezado consócio Capitão José Antônio Varela, foram aprovados os estatutos que nos regem que, publicados depois no Órgão Oficial do Governo do Estado, se acham registrados no Cartório de Registros Especiais desde 3 de outubro de 1903 para que pudessem produzir efeitos legais e fôssemos considerados pessoa jurídica.

Com a organização da Sociedade de Santa Casa de Misericórdia, como era natural, tomou mais impulso a idéia da conclusão das obras.

Eleita a diretoria, e dela fazendo parte cavalheiros do mais alto prestígio, resolveu-se a sua continuação.
A crise financeira que assoberbava o País entibiava o ânimo dos mais fortes.

Finalmente, resolveu a diretoria enfrentar as dificuldades e de novo recomeçar a ingente obra que tantos sacrifícios já havia custado.

As jóias dos sócios, mensalidades, alguns donativos e as festas que promovíamos em benefício do hospital, foram fazendo face à despesa da construção. Um auxílio poderoso tivemos da Companhia Leopoldina Railway, onde foram preparadas as madeiras a empregar-se na edificação. A isso devemos o belo teto deste salão e artística porta que a ele dá acesso.

Em 1904, o Congresso do Estado, por iniciativa do nosso consócio, o Sr. Tenente-Coronel Juvenal de Oliveira Penna, deputado por esta circunscrição, votou um auxílio de 2.000$ para esta Santa Casa.
Em 1905, ficou felizmente terminado o edifício principal do Hospital o que, entretanto, não habilitava a receber doentes, visto que faltava a construção das dependências para instalações higiênicas, cozinhas, etc, e não nos era possível prosseguir as obras por absoluta falta de recursos.

Em 19 de julho de 1908, Dr. Paulo Joaquim da Fonseca, publicou este relatório, aqui resumido, onde finalizou com estas palavras: “Farei desta casa um reduto de defesa a vossa saúde e de nossos semelhantes e um Templo de Amor ao próximo onde se pratique a caridade, essa medicina que emana do céu para aclamar as dores e suavizar o infortúnio dos desamparados da sorte, a caridade que aprendemos nos ensinamentos do Evangelho, a caridade paciente e benigna que sabe sofrer e esperar, aureolada sempre pela cintilação da fé”.


Salão Nobre do Hospital São Salvador

Adaptação do Relatório Apresentado pelo Provedor da Sociedade de Santa Casa de Misericórdia de São José de Além Paraíba, em 19 de Julho de 1908.