domingo, 14 de novembro de 2021

ALÉM PARAÍBA HISTÓRIA MAURO SENRA - POEMA ALÉM DA ESCRAVIDÃO DE ALICE MARA DE ARAÚJ0 TEIXEIRA CÔRTES

 Por Mauro Luiz Senra Fernandes






ALÉM DA ESCRAVIDÃO

 

Alice Mara de Araújo Teixeira Côrtes

Rio Paraíba,

rio antigo, tempo recuado, tempo que se foi.

Rio passado, passando, passa.

Rio limpo, puro, Puris e Coroados.

Rio encachoeirado, ilhas abraçadas.

 

Portugueses chegam, se achegam

- encanta o canto do sabiá.

Vêem o rio, a mata, o índio Puri.

Exterminam o gentio, derrubam a mata,

fica só o rio: lamento infeliz.

 

Permanecem os brancos colonizadores:

fitam o escravo que chega,

roubado, forçado, escravizado.

Ecoam lamentos na África

no mar, nas Gerais, no Brasil.

 

Aquele que chega é só sombra,

remete-se à memória guerreira tribal;

reage, luta pela liberdade,

encontra-se a ferros, sofrendo no tronco.

 

Desmaia o amanhecer, nesse de Deus;

caminham os escravos em fila,

trabalho, enxada, foice, machado,

derrubam mata, plantam café.

 

Sinhô, Sinhá acordam,

são os donos dos santos, donos da terra,

donos da vida dos escravos.

Falam por eles, matam por ela,

descansam por eles.

 

Negro Congo, palavra escrava,

tinham quase todas as mãos

que trabalhavam no Império;

misterioso, feiticeiro, tornou amigos

Orixás e Santos, transformando-os

em uma entidade só.

 

Mãos servas, voz submissa,

cozinham na casa grande.

Mãos calosas, labutam

nas plantações de café.

 

O Senhor rico compra mais negros,

compra brasão, torna-se barão.

Poderoso entre velas, sedas e rendas

ergue a taça.

 


O negro o machado “alevanta”,

corre a anta, o tatu a onça.

O feitor a chibata levanta,

açoita o negro-rebelde-preguiça.

 

Tarde voltam à senzala cansados.

Senzala lugar das ausências.

Perderam família, liberdade

roubaram-lhes a pátria,

sumiram com seu nome,

batizados cristãos viram João Nação.

 

Já é noite, a lua brilha crescente,

relembrança, herança da África,

negro dança, cantos de banzo,

cantos de saudade, cantos de oração.

 

A fogueira arde, a fumaça se eleva

levando pedidos ao céu.

Batem os atabaques e tambores

bamboleios entrelaçam cadências;

têm rituais a mais

usanças aos Oxalás.

 

Negros batem o pé descalço no chão.

Saravá a Exu,

elevam a cabeça, olhos fechados ao céu.

Saravá aos Oxalás,

levantam os braços ao céu.

Saravá a Iemanjá,

seus olhos se abrem, seus braços

que caem

e clamam: “Até já”

 

Alinhavei, alinhavei, furando os

panos que cobriam a vergonha.

Costurei retalhos negros de presença

em todo o Brasil.

Sou branca e pelos brancos peço: Perdão!...









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