quinta-feira, 29 de julho de 2010

O AERO-CLUB DE ALÉM PARAÍBA

Por Mauro Luiz Senra Fernandes




Trinta e nove anos após a consagração do 14 Bis em Paris, Além Paraíba seguiu o sonho de Alberto Santos Dumont, inaugurando o seu Aero-Club na Ilha do Lazareto e, após esse dia, o céu de nossa cidade nunca mais foi o mesmo.
O coração alemparaibano bateu forte pela conquista do espaço, vibrou pela realização do ideal que o gênio Santos Dumont infundiu nos sentimentos patrióticos de nossa gente. E quando se anunciou no país os primeiros toques da Campanha Nacional de Aviação, ao alvorecer da nova época de um Brasil potencialmente aeronáutico, todos - moços e velhos, homens e mulheres, sentiam que era chegado o momento supremo, a hora se competia concretizando o ideal.
Na manhã luminosa de 25 de fevereiro de 1945, o avião “João Urupúkina”, pilotado pelo Sr. René Valverde, alçou o seu primeiro vôo oficial, levando a bordo o prefeito Luiz de Marca, regressando ao campo após algumas evoluções sobre a cidade.
O memorável 25 de fevereiro foi encerrado com o banquete oferecido ao Sr. Virgílio Costa, no Magnífico Hotel.


Uma Fonte:
Eduardo Franco (Monego) - 1977 - “O nosso piloto”

A idéia do aero-club foi do Virgílio Costa que já faleceu. Um dia ele chegou pra mim e disse: - “Olha Monego, eu vou criar um aero-club em Além Paraíba e o local escolhido para o campo será a Ilha do Lazareto”. Eu adorei a idéia, pois sempre gostei de aviação e lhe assegurei no momento a minha colaboração no empreendimento. Àquela época existia a Campanha Nacional de Aviação que era presidida por Assis Chateaubriand e incentivava a criação de aero-clubs no país e a formação de novos pilotos. Pois bem: a Ilha do Lazareto era um verdadeiro matagal, tendo apenas uma casinha na margem do rio e não havia ponte - nós atravessávamos as máquinas e o material para a construção do campo e do hangar numa balsa, depois os cabos que sustentavam a balsa arrebentaram e ficamos atravessando só de bote. Mais tarde, consegui do Ministério da Aeronáutica, a atenção dos direitos alfandegários para a vinda dos cabos de aço e construímos a ponte pênsil que está aí até hoje. Os recursos para esta ponte foi contribuição de muita gente, mas o deputado Euvaldo Lodi nos auxiliou muito na sua construção e o projeto foi feito pelo Dr. Alfredo Funchal Garcia.


Como vocês podem constatar, um rio não era obstáculo à tenacidade dos homens daquela época para alcançar seus propósitos. O hangar que abrigava os dois aviões doados pela Campanha Nacional de Aviação foi construído pelo dinâmico empresário da época, José Mercadante, enquanto a sede do aero-club situava-se na rua Marechal Floriano e teve como presidentes os senhores Virgílio Costa que foi o fundador e idealista, Waldyr Vilela Pedras, Eduardo Franco, Heimar Côrtes, Oded Tavares e Abílio Salomão. O aero-club teve uma vida efêmera, de 1944 a 1953.

Os que tiraram brevê aqui fomos eu, Newton Perácio, Afrânio Cerqueira, o Murilo Abreu que era um engenheiro da Ligth e José Gastão Vilela Junqueira. O Virgílio Costa era um entusiasta da aviação mas nunca quis aprender.

Um avião caiu comigo no dia 21 de outubro de 1951. Nós estávamos entrando na Semana da Asa e, naquele Domingo, faríamos por isso uma exibição comemorando o fato. Nós tínhamos resolvido que faríamos a caça ao balonete que consiste em encher uma bola de gás e soltar enquanto o avião - que fica no ar já esperando - vai procurar estourá-la com a hélice do avião, no menor tempo possível. Eu fui testar um avião que já havia apresentado defeitos (havia falhado o motor três vezes comigo) mas a gente nunca acredita no insucesso e, nas três vezes eu havia contornado a situação. Pois bem, mandei que soltassem o balonete que ganhou altura com muita facilidade, tentei furá-lo e o defeito apareceu. Resolvi então descer e quando inclinei a asa e acelerei, o avião “pifou”, rodou em parafuso e veio caindo, até a altura de 80 metros. Tentei tirá-lo do parafuso, depois vi que era impossível. O avião caiu de bico sobre a ilha onde localizava-se o campo de pouso, meu corpo afundou o painel de instrumentos e foi parar em cima do motor. Estive sem sentidos no hospital durante uma semana e, em conseqüência, afundei o lado esquerdo do rosto perdendo a visão.

Apesar de ter prometido à minha família que não voltaria mais a pilotar, sessenta dias após minha queda, o engenheiro Murilo Abreu que já havia saído de Além Paraíba e estava na Usiminas, trouxe um avião americano para eu testar. Após enganar o pessoal, saí de casa às escondidas e logo depois estava pilotando mas, como eu gostava de fazer acrobacias, fui logo descoberto por algumas pessoas que avisaram na minha casa e, quando desci, encontrei um recepção não muito amistosa e a pedido da minha família nunca mais voltei a voar, mesmo porque a perda de uma vista me eliminava para o exercício da pilotagem.
Esse negócio de falar que eu passava com o avião debaixo da ponte de Porto Novo não é verdade; é que eu sempre passava tocando de leve a ponta da asa nas águas e quando estava bem próximo da ponte eu subia para descer logo do outro lado, o que dava a impressão às pessoas que estavam distante de que o avião passava por baixo.

Tenho saudade da mocidade, como tenho do aero-club, pela muita camaradagem e pelos bons tempos da juventude.

Fonte: Adaptação do texto do Jornal Agora - 1977

domingo, 11 de julho de 2010

SURGE O ASILO ANA CARNEIRO – DR. LADÁRIO DE FARIA

Por Mauro Luiz Senra Fernandes



Dr. Ladário de Faria

Aquele magro estudante de Medicina, alto e simpático, ao passar certo dia pelas portas do Asilo São Luiz Rei, no Rio de Janeiro e distinguindo, através da grade, uma quantidade enorme de mulheres e homens idosos, viu-se tomado da sensação de imensa dó, de enorme piedade por aqueles e outros pobres infelizes em condições iguais, a tantos outros espalhados pelos quatro cantos da terra.
E jurou para si mesmo:

-“Que Deus não me deixe morrer antes de ter construído um asilo, uma casa, onde possam se abrigar esses mal aventurados que chegam ao fim da existência sem conforto, agasalho ou uma palavra amiga. Juro que esta há de ser minha cruz. Embora pesada, não descansarei enquanto não levá-la ao Horto”.

Quis o destino que esse estudante concluísse o curso de medicina e viesse morar em Além Paraíba, aqui instalando seu consultório, fazendo sua clientela, despertando as atenções gerais para suas virtudes de profissional, conhecedor da “arte de curar”, sendo sua carreira enveredada, também, pela carreira política, ocupando o cargo de Prefeito Municipal por mais de uma vez.

Dr. Antônio Augusto Junqueira quando à frente do Executivo, convidou para que ele fosse chefe do Posto de Profilaxia, oportunidade em que pôde demonstrar sua disposição de extinguir com focos de sujeiras por todos os cantos da cidade, em profissão de fé digna de um sanitarista de renome.
Muita gente zangou-se quando desencadeou terrível campanha contra porcos criados até dentro de casa e nas zonas residenciais de Além Paraíba, conseguindo levar a cabo sua tarefa, melhorando em muito o estado higiênico de nossa “urbs”.

Porém, não esqueceu da promessa a si mesmo feita. E, ao chegar aqui, encontrou já os princípios da instituição com que sonhara quando estudante. O número de mendigos era grande, causando o mais justo constrangimento a quantos circulavam e viviam por essas plagas. Porisso, falava-se na construção desse asilo, sem que os objetivos entrassem no terreno prático.

Até que, no dia 13 de junho de 1921 – Dia de Santo Antônio – houve uma grande festa junina na Fazenda da Barra do Peixe, então propriedade do Coronel Antônio Martins de Lima Castello Branco, genro do Comendador Simplício Ferreira da Fonseca, grande amigo do Dr. Ladário.

Formaram-se várias mesas de pôquer, em uma das quais estavam sentados o Coronel Augusto Perácio ¬– comerciante e fazendeiro no Estado do Rio – o próprio Ladário e um engenheiro do Estado a serviço de nossa Zona.

Perácio teve a sorte de empunhar o jogo maior, conseguindo abocanhar a expressiva quantia de 3.000$000 (três mil contos de réis).

Ladário não perdeu o ensejo, pedindo ao amigo a quantia para criar um asilo. Perácio, já sabendo os ideais do amigo, entregou-lhe a polpuda soma ganha no jogo.

Fulminante resultado, numa festa em que se reuniam tantas personalidades destacadas de Além Paraíba, ninguém negou a auxiliar Ladário de Faria que pôde, assim, arrecadar nada menos que 9.000$000 (nove mil contos de réis).

No dia subseqüente, animado com as ocorrências na Fazenda da Barra do Peixe, o Dr. Ladário de Faria conversou com o Coletor Federal, Raul Belo Pimentel Barbosa e o Promotor de Justiça Aristóteles Lobo, prometendo ambos cooperar com o facultativo.

Surge o problema da localização do asilo. Raul Belo, porém, procura Joaquim Carneiro júnior, seu cunhado e filho de Dona Ana Carneiro, proprietária de uma casa situada no Morro do Carneiro, bem em frente à colina do hospital, além de mais três moradias abaixo.

O conjunto é vendido pela importância de 9.000$000. Não satisfeito, Joaquim Carneiro Júnior – “Carneirinho”- doa todo mobiliário, roupas de cama, louças e bateria de cozinha, possibilitando, desse modo, o imediato funcionamento da instituição.

No dia 1º de janeiro de 1923, às duas horas da tarde, no próprio edifício da entidade, foi empossada a primeira diretoria, assim composta: Dr. Ladário de Faria - Presidente, Joaquim Cerqueira Porto - Vice, Dr. Aristóteles Lobo - Secretário, Coronel Raul Belo Pimentel Barbosa - Tesoureiro. Também foi organizado o seguinte Conselho Consultivo: Capitão Alfredo Augusto do Amaral, Álvaro Antunes, Álvaro Boechat, Antônio Augusto de Azeredo Coutinho, Dr. Antônio Alves Taranto, Antônio Gonçalves Fernandes Timbira, Antônio Ribeiro Ferreira, Cesar Corrêa da Cruz, Delfino Rocha, Dr. Edelberto Figueira, Ernesto Pereira Antunes, Fausto Gonzaga, Dr. Jarbas Pires Marques, Cônego João Batista da Silva, Jorge Elias Sahione, José de Carvalho Marques, José Augusto Domingues, José Antônio Varela, José Antônio Marques, José Teixeira Bastos, Dr. Joviano Rezende, Levi Reis Rodrigues, Lineo Antunes Vieira e Nestório Valente.

Desde às duas horas da tarde, o edifício do Asilo, que por sinal fora residência de Dona Ana Carneiro, se achava de repletos de convidados.

Pouco antes das três horas, chegou a Sociedade Musical Sete de Setembro, toda uniformizada.
Por ocasião do ato inaugural, já estavam confortavelmente instalados vários asilados, variando de idade mas numa média de 70 anos quase todos, e todos paupérrimos, mas felizes pelo abrigo que lhes garantia uma confortável velhice, protegidos por pessoas caridosas, pela segurança da construção e pelo conforto que o mesmo lhes oferecia.

Feliz da vida, Ladário de Faria ao contemplar tudo aquilo, lembrava-se de seu tempo de estudante no Rio de Janeiro, quando imaginava ver realizado um sonho – igual ao do magnífico São Luiz Rei – que, agora, se concretizava.

Fonte: Adaptação do texto de Octacílio Coutinho

Inauguração da Nova Sede do Asilo Ana Carneiro

Na tarde do dia 20 de abril de 1958, às 16 horas, na Vila Caxias, foi inaugurada a nova sede do Asilo Ana Carneiro com a presença de autoridades e do povo.

No ato Inaugural, foi benta e entronizada uma imagem de Santo Antônio, no pátio interno daquele asilo, cuja cerimônia religiosa foi presidida pelo Padre Cirilo Lubers. Em seguida, o Padre Humberto leu para os presentes um relatório referente à prestação de contas da comissão festiva e agradeceu, em nome do Asilo Ana Carneiro, os relevantes serviços prestados àquela casa, pela Srta. Maria José Araújo, pelo muito que fez pelos velhinhos asilados. Igualmente citou os nomes de Heitor Corrêa Rodrigues, Presidente do Asilo, bem como: Aquilles Binato, pertencente à Diretoria, que de sua tenacidade resultou aquela obra magnífica. Estendeu os seus agradecimentos aos Srs. Gabriel Araújo e Manoel Sapucaia e bem assim à Dona Odáia, a qual vinha prestando os seu serviços ao asilo há longos anos, com devotamento invulgar aos velhinhos ali recolhidos.

O Asilo Ana Carneiro é um estabelecimento que deve ser visitado por todos, para que se sinta o quanto é necessário ajudá-lo, pois ali vamos encontrar somente aqueles que deram tudo na vida e dela receberam o desengano, o abandono. Olhemos pois, para aqueles infelizes, amenizando os seus dias futuros.

Fonte: Adaptação do texto de Djalma de Assis Mouço - 27 de Abril de 1958

domingo, 4 de julho de 2010

SEGUNDA GUERRA MUNDIAL - ALÉM PARAÍBA VAI À GUERRA

Por: Mauro Luiz Senra Fernandes



 Final da Segunda Guerra Mundial,combatentes alemparaibanos Waldyr Filgueiras, Fuhad Fadel Sahione, Jairo Faria, Braz Povoleri e o jornalista Imbrahin Tebet (Jornal "A Noite"), setembro de 1945, no vapor "General Meigs"

Como na Primeira Guerra Mundial, o Brasil só entrou no conflito depois de ter seus navios afundados pela Alemanha. Em 1942, porém, os torpedeamentos foram mais violentos: 36 mercantes brasileiros foram postos a pique, provocando a morte de quase mil pessoas. Apenas entre fevereiro e julho de 1942, foram 14 os navios afundados. Mas só em 15 de agosto deu-se o primeiro ataque em águas territoriais brasileiras: o submarino nazista U-507 afundou o Baependi matando seus 270 tripulantes. Nos dias seguintes, o mesmo submarino pôs a pique outros quatro navios, todos na costa entre Sergipe e Bahia. Os ataques causaram grande comoção nacional e nem mesmo os simpatizantes do nazismo que faziam parte do Governo conseguiram impedir (como havia feito antes) inúmeras passeatas favoráveis à declaração de guerra. No dia 31 de agosto, Vargas rendeu-se à pressão e o Brasil declarou guerra à Alemanha.

Nem todas as nações aliadas eram favoráveis à presença do exército brasileiro nos combates na Europa, uma vez que as tropas do país eram consideradas despreparadas e mal equipadas – o que era um fato. O projeto inicial era enviar os expedicionários brasileiros para combater na África. Em agosto de 1943, um decreto criara a Força Expedicionária Brasileira (FEB). Esperava-se que cem mil brasileiros se alistassem. No início de 1944, porém, apenas 28 mil soldados estavam prontos para entrar na guerra. A derrota alemã na África forçaria uma mudança nos planos dos aliados com relação à FEB, escalada, então, para lutar na Itália. Na noite de 30 de junho de 1944, numa operação sigilosa, mais de 5 mil soldados brasileiros embarcaram, no Rio de Janeiro, no navio americano General Mann, com destino ainda desconhecido. Era o primeiro contingente dos 25.334 homens que, sob o comando do General Mascarenhas de Moraes, se incorporariam ao 4º Corpo do Exército Americano, por sua vez integrante do 15º grupo de exércitos aliados.

Os soldados brasileiros não fizeram feio nos campos de batalha da Itália. Ao longo de 239 dias de luta (de 6/9/1944 a 2/5/1945), a FEB participou da guerra pela conquista dos Apeninos, a cadeia montanhosa, de grande importância estratégica para dar acesso aos vales dos rios Reno e Pó. A tomada de Monte Castelo – que fracassara em três ocasiões anteriores – ocorreu em 21 de fevereiro de 1945, depois de 12 horas de combate. Foi o ponto alto da ação bélica brasileira. Ao todo, o Exército do Brasil teve 465 mortos – 444 soldados, 13 oficiais do Exército e 8 oficiais da FAB (Força Aérea Brasileira) – e 1.517 feridos em combate (mais de 658 “acidentados”). A FEB capturou mais de 20 mil alemães, 80 canhões e 1500 viaturas. No dia 18 de julho de 1945, os primeiros 4.931 pracinhas brasileiros retornaram ao Rio de Janeiro. Ao desfilarem pela Avenida Rio Branco, foram recebidos apoteoticamente. Ao longo das semanas seguintes, a cerimônia se repetiria para os demais contingentes.

Inúmeros jovens alemparaibanos foram convocados para integrar na FEB, muitos não chegaram a ir pois a guerra chegou ao final. Tivemos dois veteranos que morreram na Itália: Clower Bastos Côrtes e Manoel de Souza. No Rio de Janeiro podemos visitar o Monumento dos Pracinhas, localizado no Aterro do Flamengo, que homenageia os combatentes mortos na Itália.

Embora muitos não saibam, há um monumento que se destaca na Praça Coronel Breves, homenageando os 33 alemparaibanos convocados e que combateram na Segunda Guerra Mundial. São eles: Adolfo de Carvalho Fernandes, Antônio José da Silva, Antônio Ferreira da Silva, Bento Ribeiro Ferreira, Braz Povoleri, Carlos Côco Muchinelli, Cirilo José Bandeira, Clóvis Monteiro dos Santos, Clower Bastos Côrtes, Edson Lettieri, Fracisco Alves de Almeida, Fuhad Fadel Sahione, Gabriel Tavares de Souza, Geraldo Furtado Gomes, Geraldo Teixeira Rodrigues, Helton Rocha, Jairo Faria, João Adriano de Carvalho, João Alexandre, João de Souza Santos, João Ferreira da Silva, José Ernesto, José Ferreira de Resende, José Furtado Gomes, José Gonçalves de Lima, José Medeiros de Melo, Manoel de Souza, Manoel Marques de Rezende Filho, Mário Nascimento, Otávio Manoel Ferreira Junior, Waldyr Filgueiras, Walter Gomes da Silva e Ed Torres Furtado (FAB).

 Brasileiros em Monte Castelo - Itália

Ed Torres Furtado (FAB)


Monumento que homenageia o "Pracinha" alemparaibano, 
foi inaugurado em 01 de fevereiro de 1959.

"Nessa pedra que tem alma, no granito que pulsa, no monumento que respira, no pracinha que empunha o fuzil com firmeza, na fisionomia do combatente que enfrenta a luta com decisão, refletem-se a coragem, a valentia, a bravura, o patriotismo, o sangue rubro, o entusiasmo, próprios dos moços nascidos à sombra dos nossos vergeis, beijados pelo Paraíba, pelo Limoeiro, pelo Angú ou Riacho da Conceição, que vocês, só do alto, junto as estrelas e ao luar continuarão a ver".O Professor Sílvio Rodrigues Maia proferiu o discurso no dia da inauguração.

domingo, 27 de junho de 2010

O ESPORTE EM ALÉM PARAÍBA

Por Mauro Luiz Senra Fernandes




Uma Fonte: Arthur Herdy Oliveira - 1934

Jamais teve a nossa cidade fobia pelos esportes. Os seus habitantes - os moços - mais de perto, mostram-se sempre afeitos a cultura física, em suas várias modalidades. Cidade ribeirinha, é natural que as preferências de seus habitantes se voltassem para o esporte náutico. Com efeito: com relação à natação, sempre houve quem a esse gênero de cultura muscular se dedicasse, embora nunca me lembre existisse aqui associação que controlasse, que reunisse os seus adeptos. Bandos de meninos, rapazes, senhores mesmo, se banharam no nosso majestoso Paraíba, deliciando-se, entregando-se a exercícios natatórios, às vezes com perdas de vidas de alguns mais afoitos.
O remo, também, teve os seus apreciadores mas, como a natação, os seus adeptos nunca se associaram para melhor se controlarem, como ainda se vê até hoje...
A primeira associação desportiva que surgiu entre nós foi organizada pelo saudoso Cândido Porfírio, se não me falha a memória, em 1898, e com o fito de concitar os alemparaibanos a praticarem o também não menos salutar gênero de desenvolvimento físico - o ciclismo. Ainda perdura na memória dos maiores de quarenta e cinco anos o que foram as corridas de bicicletas em nossa cidade, no campo da Ilha Recreio.
Em 1904, outro núcleo de moços tentou reerguer a “arte do pedal” na cidade onde ela tivera tão acolhida seis anos atrás e, como aconteceu com o primeiro surto esportivo, em menos de um ano a nova associação desportista foi-se por “água abaixo” por causas diversas...
Houve um pequeno hiato em relação à sociedade esportiva em nossa “urbs” até que, em 1905 ou 1906, um grupo de estudantes entre os quais os irmãos Taranto (Antônio e Carlos), os irmãos Laroca (Alexandre e Miguel) e outros rapazes locais, cujos nomes deixo de mencionar por ignorá-los, tiveram a primazia de serem os precursores do já famoso e querido jogo bretão, hoje tão bem assimilado pelos nossos patrícios, a ponto de o praticarem melhor do que os seus mestres do futebol.
Entre as várias associações (da primeira não refiro o nome por não ter conseguido informes certos) que desde aquela época (1905) foram criadas em Além Paraíba, destaco os seguintes (pedindo perdão aos leitores se omitir o nome de alguns): “Castello Branco”, “Além Paraíba”, “Operário”, “XPTO”, “Coríntians”, “América” e, por último, o “Comercial” e o “Bayne”, achando-se os dois últimos ainda de pé, em plena pujança, contando o primeiro oito anos e o último quatro anos. O que tem feito essas duas associações pelo esporte em nossa terra é desnecessário encarecer, pois está na memória e à vista de todos, haja vista as arquibancadas erguidas na praça de esportes na rua Capitão Varela, em Porto Novo, pelo Comercial e a radical transformação feita no campo do Bayne que, também, pretende implantar de vez o gosto pelos esportes aos alemparaibanos - isso tudo graças aos seus dirigentes que não têm poupados esforços e tenacidade.
Equipe do Colégio Além Paraíba x Seleção de Cataguases - 1941

terça-feira, 15 de junho de 2010

A CRISE DE 1929 E A REVOLUÇÃO DE 1930 EM ALÉM PARAÍBA

Por Mauro Luiz Senra Fernandes

A característica mais importante da crise de 1929 foi o seu caráter mundial. Iniciada nos Estados Unidos, em pouco tempo atingiu, praticamente, todo o mundo. Havia um grande número de países que mantinham transações comerciais com os Estados Unidos; essa dependência era mais acentuada nos países que recebiam empréstimos norte-americanos.

Os que mais sofreram foram os que tinham recebido capitais norte-americanos sob forma de empréstimos ou investimentos, já que de uma hora para outra eles foram retirados.

Nas décadas de 1920 a 1930, o café representava cerca de 70% da totalidade das exportações brasileiras, e os Estados Unidos eram os maiores compradores e consumidores do produto. A redução das importações por parte dos Estados Unidos, devido a crise de 1929, significou uma queda total das exportações do café brasileiro. O Brasil dependia principalmente das vendas de café no exterior para equilibrar a balança comercial.

Um fator interno veio agravar a crise no Brasil: durante muitos anos, os estoques de café vinham aumentando nos armazéns, já que no ano de 1906, quando houve superprodução, adotou-se a política de armazenar os excedentes para vendê-los nos anos em que a colheita não fosse tão favorável. O armazenamento foi feito com financiamentos de bancos estrangeiros, com garantia do governo brasileiro.
A crise de 1929 trouxe, além da diminuição do consumo, o abandono da política de estocagem, pois os bancos estrangeiros não mais estavam em condições de financiá-las, e o preço do café começou a cair. O valor do café exportado pelo Brasil passou a ser de somente 53% do total das nossas exportações.

Mas a crise de 1929 não afetou somente o café; os preços de todos os produtos primários foram afetados da mesma forma, reduzindo a receita das rendas da exportação e aprofundando a crise.

Mas a indústria, em geral, foi favorecida pela crise. Muitos capitais investidos na produção do café passaram a ser aplicados em empresas industriais. A crise econômica provocou a desvalorização da moeda brasileira, reduzindo sensivelmente seu poder de compra e tornando mais caros os produtos importados do estrangeiro. Isso estimulou a fabricação de produtos similares no país.

No Brasil, os setores mais afetados foram os que estavam ligados à exportação. Mesmo assim, muitos fazendeiros sofreram grandes perdas. Passaram a exigir do governo medidas para solucionar a crise, mas o governo mostrava-se incapaz de resolver o problema, perdendo com isso o apoio dos setores descontentes.
Até essa época, o principal apoio dos governos tinha sido a classe dos grandes fazendeiros e os proprietários. A busca de posição de classe abria o caminho para soluções radicais violentas. Alguns dos grupos opostos ao governo se uniram para derrubá-lo; Washington Luís, Presidente da República, em 1930, foi afastado e, no seu lugar, assumiu o poder, com apoio da Forças Armadas, Getúlio Vargas.

O motivo imediato da disposição de Washington Luís, na chamada Revolução de 1930, foi sua incapacidade de resolver os problemas criados pela crise de 1929. O governo de Getúlio Vargas resolveu a crise obtendo créditos para comprar uma vez mais os excedentes. Mas dessa vez, esses excedentes não foram armazenados. Uma pequena parte foi trocada por trigo americano, o resto foi queimado para manter o preço no mercado.

A Revolução de 1930

Foi um movimento político-militar que derrubou o Presidente Washington Luís em outubro de 1930 e acabou com a “Primeira República”, chamada pelos livros didáticos do ensino médio de “República Velha”, levando Getúlio Vargas ao poder.

A Crise da “Primeira República” – oligárquica – agrava-se na década de 1920 e ganha visibilidade e amplitude com a mobilização operária – greves (a classe operária era formada por brancos e imigrantes europeus com influência do socialismo e do anarquismo – havia racismo contra negros e nordestinos), as revoltas tenentistas (movimento das camadas médias do exército, descontentes com má política do coronelismo, contra o “voto-cabresto”, defendia o voto secreto e a modernização do Estado) e as dissidências políticas (em 1922 é fundado o PCB) que enfraqueceram as oligarquias, ameaçando a aliança entre São Paulo e Minas Gerais.

Em 1929, o Brasil começa a ser afetado pela crise da quebra da Bolsa de Nova Iorque que compromete o comércio mundial. Alegando defender os interesses da cafeicultura, o Presidente paulista Washington Luís, lança como candidato à sucessão o governador de São Paulo, Júlio Prestes, do PRP (Partido Republicano Paulista). Ao indicar outro paulista, rompe a política do “café-com-leite”, pela quais mineiros e paulistas se alternavam no poder. Em represália, o Partido Republicano Mineiro (PRM) passa à oposição, forma a Aliança Liberal e apóia o gaúcho Getúlio Vargas para a Presidência tendo o paraibano, João Pessoa como vice.
O programa da Aliança Liberal contém reivindicações das forças democráticas de todo o País, como a defesa do voto secreto e da Justiça Eleitoral. Mas, em março de 1930, seus candidatos perdem a eleição para a chapa oficial, formada por Júlio Prestes e pelo baiano, Vital Soares. A oposição começa a desmobilizar-se quando João Pessoa é assassinado, em crime passional. Os aliancistas atribuem motivos políticos ao crime e deflagram uma rebelião política-militar.

Chefiada por líderes aliancistas e tenentistas, a revolta é articulada entre o Sul e o Nordeste, e tem o apoio de diversos estados. Começa no Rio Grande do Sul, em 3 de outubro, liderada por Getúlio Vargas, Oswaldo Aranha e Góis Monteiro. Em seguida, irrompe no Norte e no Nordeste, sob o comando do tenentista Juarez Távora. Sem encontrar resistência, os revoltosos avançam sobre o Rio de Janeiro. Os ministros militares antecipam-se ao movimento e depõem Washington Luís em 24 de outubro.

No dia 3 de novembro, Vargas chega ao Rio de Janeiro e assume o Governo Provisório. Nomeia interventores nos estados, mas tem problemas para acomodar os interesses das forças que sustentam seu governo. Isso retarda as medidas político-institucionais, como a convocação da Assembléia Constituinte, provocando denúncias e manifestações públicas, algumas das quais se tornam revoltas, como a Revolução Constitucionalista de 1932.

A nova Constituição só é aprovada em 1934, após forte pressão social. Mas a estrutura do Estado brasileiro modifica-se profundamente depois da revolução de 1930, tornando-se mais ajustada às necessidades econômicas e sociais do País. O regime centralizador da “Era Vargas” estimula a expansão das atividades econômicas urbanas e o deslocamento do eixo produtivo da agricultura para a indústria, estabelecendo as bases da moderna economia brasileira.

A Revolução de 1930 em Além Paraíba

Sargento Batista

O Comando revolucionário defronte a Estação Ferroviária de Porto Novo

Além Paraíba foi um lugar estratégico na “Revolução de 30”, com o deslocamento de soldados vindos de todas as partes. Reservistas foram convocados para enfrentar as tropas legalistas, já entrincheiradas do lado de lá do caudaloso rio Paraíba do Sul, que separa Minas Gerais do estado do Rio de Janeiro, esperando apenas a ordem do comandante para atravessarem o rio e tomarem de assalto a cidade, reduto dos soldados revolucionários comandados pelo coronel Americano Freire, Major Lerac e outros. A cidade tornou-se uma praça de guerra, estabelecendo-se a interdição da ponte interestadual sobre o rio Paraíba do Sul, de trezentos metros de extensão e cinqüenta de altura, com assentamento de minas e sacos de areia. A qualquer momento, tudo poderia ir pelos ares, com estrondo das minas e das bombas sincronizadas em toda a ponte.


Foi uma época de muita tensão na cidade, notícias pelo rádio que punham a população sobressaltada, inclusive pela possibilidade de invasão – muitas famílias se refugiaram na zona rural, deixando a cidade quase vazia.


O soldados transitavam por toda parte, em movimento febril. Tropas militares de um lado e do outro do rio já tomavam posições estratégicas, esperando a qualquer momento a ordem de combate. A primeira vítima fatal dos tiros, vindos do outro lado do rio, foi um operário de obras na cidade – João de Castro – que retirava areia à margem do Paraíba, atrás da Estação Ferroviária de São José. Diz-se que o autor do disparo o fez por puro divertimento pois João de Castro não era soldado, nem se encontrava em ação de guerra – “Quer ver como se mata um homem?” – teria dito a alguém que se encontrava a seu lado. Pelo óculo de alcance da metralhadora fez pontaria e o tiro foi certeiro.

Nessa altura, estavam do lado de Minas, soldados entrincheirados a sete quilômetros, em gôndolas de aço da ferrovia, respondendo ao cerrado tiroteio das tropas adversárias, acampadas no outro lado do rio, quando uma bala inimiga bateu na borda da gôndola, ricocheteou e veio atingir mortalmente o reservista alemparaibano Oswaldo Francisco Lopes Tomazini, no dia 16 de outubro.

A situação estava cada vez mais tensa, pois a oficina ferroviária era alvo das tropas adversárias que aguardava o recebimento de um canhão como reforço a qualquer momento. Os trens expressos e mistos diários que transitavam à margem do rio Paraíba do Sul, vinham em grande velocidade pois eram atingidos pelas balas partidas das tropas acampadas do outro lado.

Nas Oficinas da Leopoldina, foi construído um canhão que foi entregue ao alto Comando que, imediatamente, o enviou ao local onde as forças antagônicas trocavam tiros. O primeiro tiro disparado pelo canhão acertou em cheio o edifício da Estação Ferroviária de Paquequer, que desmoronou-se, pondo os soldados em fuga. Houve, assim, a batalha decisiva que culminou com a vitória do lado de Além Paraíba. Não se sabe quantos tombaram nessa batalha, nem seus nomes, pois as fontes militares são muito discretas.
Com o fim da revolução, a cidade sofreu um duro golpe, com a perda de muitas vidas. Estava vitoriosa a revolução em todo o território nacional.

Ponte no Rio Paraíba do Sul próximo a Estação Ferroviária de Paquequer

No dia 3 de dezembro de 1930 houve, entretanto, um pavoroso desastre no local que mais tarde passaria a chamar-se Praça Getúlio Vargas, onde funcionava o comando das forças revolucionárias, sediado em Porto Novo, centro comercial da cidade. O paiol de munições, repleto de dinamites explodiu com tal intensidade que levou para os ares o próprio prédio do comando, de dois andares, inclusive dois prédios laterais, também de dois andares, provocando a morte imediata de, aproximadamente, trinta pessoas, vinte seis feridos – alguns falecidos em conseqüência do acidente. O Comando estava, exatamente por ter terminado a revolução, acertando as contas com todos aqueles que colaboraram com o movimento revolucionário, quer emprestando armas, animais ou fornecendo cereais e outros implementos requisitados pelo Comando e colocando as munições nos vagões para serem enviados para a cidade de Juiz de Fora. Conforme fonte oral, diz-se que, nesse dia, fazia-se um calor imenso na cidade, quando o Sargento Batista chamou a atenção do major Lerac, dizendo que a temperatura podia prejudicar o trabalho e colocava em risco a segurança do paiol de munições. O Major Lerac não aceitou o questionamento e mostrou para o sargento que ele era a maior autoridade do Comando. Além da explosão que matou populares no local, o cabo do bonde elétrico, de alta tensão, arrebentou-se, chicoteando no solo com descargas, ceifando ainda muitas vidas. Longe se escutou a explosão e viu-se o grande cogumelo de fumaça subindo pelos ares. O terror e o pânico apoderou-se da população: havia corpos estraçalhados por toda parte.

Cessado o pânico, foi feito o balanço das conseqüências e apurado o quadro de mortos e feridos. Entre os inúmeros mortos estavam: Major Lerac e sua esposa, o Tenente Mário Stewart, Antônio Moreira Júnior, Ludgero Moreira, o fazendeiro Álvaro dos Reis Villela e seu filho Milton, José Kalim Salomão, sua esposa, sogra e as filhas-meninas Ivone e Eny, Filadelfo Couto, o industrial Affonso Salvio, Acácio Lopes, José Martins Fortes, Alfredo Santero, os soldados Serapião Santos, João Laureano, Júlio Soares, Sargentos Marinho e Angenor Anspeçada Virgílio e o Tenente José Barroso. E, ainda, o menino Imanoel Batista, filho do combatente Sargento Batista, as meninas Iêda e Alda, filhas de Anibal Perácio. Mas, jamais se pôde precisar a quantidade exata, inclusive admitindo-se que inúmeros corpos despedaçados teriam sidos despejados no rio Paraíba do Sul pela explosão e nunca mais encontrados.

Jornal "Além Parahyba" - 29 de novembro e 3 de dezembro de 1931

Missa realizada na Igreja Matriz de São José em memória dos alemparaibanos mortos na Revolução de 1930.

Jornal "Além Parahyba" - 4 de outubro de 1931
Final da Revolução de 1930 - Chegada a Nova Friburgo, da composição ferroviária, trazendo, do município fluminese do Carmo as "forças legalistas" (derrotadas) do "Batalhão Galdino do Valle", que haviam ído ao município mineiro de Além Paraíba, para combater as forças rebeldes (vitoriosas), vindas daquele Estado.
Fonte: adaptação dos textos de Joaquim Moreira Júnior, Octacílio Coutinho e Dona Natanael Batista.

domingo, 6 de junho de 2010

DOUTOR HERÁCLITO FONTOURA SOBRAL PINTO

Por Mauro Luiz Senra Fernades



O Grande Cidadão Honorário de Além Paraíba

Faleceu aos 98 anos de idade, sendo o mais antigo advogado e defensor dos direitos humanos no Brasil. Católico e anticomunista fervoroso, Sobral Pinto surpreendeu seus clientes mais conservadores em 1936 ao assumir a defesa dos comunistas Luís Carlos Prestes e Harry Berger, líderes da fracassada rebelião apelidada de Intentona Comunista. Essa atitude seria compreendida no decorrer de seus 74 anos de carreira, em que ficou conhecido por uma eterna oposição aos governos autoritários e pela defesa ferrenha dos direitos humanos. Ficou célebre sua intervenção em favor do alemão Berger, enviado pelo Komintern para organizar o levante e massacrado pela tortura nos cárceres da ditadura getulista: Sobral Pinto recorreu à lei de proteção dos animais. Entre seus clientes alinharam-se desde outros comunistas de renome – Carlos Marighela e o escritor Graciliano Ramos – até o integralista Plínio Salgado.

Em 1955, criou a Liga de Defesa da Legalidade, cujo objetivo era lutar pelas eleições para Presidência, ameaçadas quando Juscelino Kubitschek e João Goulart entraram na disputa. Signatário de várias cartas abertas com críticas aos poderosos, Sobral Pinto foi preso em 1968 após a decretação do Ato Institucional nº 5, quando cunhou uma de suas frases mais famosas. Dirigindo-se a um carcereiro, segundo o qual o AI-5 pretendia o estabelecimento de uma “democracia brasileira”, fuzilou: “Há peru à brasileira, mas não há soluções à brasileira. A democracia é universal, sem adjetivos”. Paladino dos costumes tradicionais cristãos, Sobral era contra a censura aos meios de comunicação, mas defendia o embargo de peças de teatro e filmes que pudessem conter “imoralidades”. Na campanha das “Diretas Já”, em 1984, eximiu-se de cunhar frases e recorreu a uma definição conhecida, dita em voz trêmula: “Todo poder emana do povo e em seu nome será exercido”.

Feliz da cidade brasileira que pode se orgulhar de ter abrigado entre seus filhos, um homem da estatura moral de Sobral Pinto, o advogado mais brilhante que o país já conheceu no seu trajeto político.

A Família Sobral Pinto em Além Paraíba, em 1903. Da esquerda Rúbens, Idalina, Príamo, Natalina e Heráclito.

Quando aqui nos visitou em 1978 para receber o justo título de Cidadão Honorário ele contou-nos que, embora nascido em Barbacena, veio para Além Paraíba com um ano de idade, no final do século dezenove. Seu pai, sendo agente da Estrada de Ferro Central do Brasil quando mudou-se para Além Paraíba. Sua família foi morar no casarão localizado no pátio da Estação de Porto Novo e que dá fundos para a atual Rua Quinze de Novembro, onde nasceu alguns de seus filhos e irmãos de Sobral Pinto.

Seu pai Príamo Cavalcante Sobral Pinto, nasceu em Além Paraíba, na “Chácara Sobral”, onde hoje situa-se o Colégio Santos Anjos. Ele casou-se em Santo Antônio do Aventureiro no dia 2 de julho de 1880, com Idalina Augusta de Oliveira Fontoura - natural de Mar de Espanha.
Dr. Heráclito, era neto paterno de Luiz Sobral Pinto e Cândida Rosa de Albuquerque Cavalcante Sobral e neto materno de Fernando Gomes Caldeira Oliveira Fontoura Júnior e Gertrudes Pereira Monteiro Coelho.

Os estudos primários do jurista foram feitos em escola particular e depois em escola pública de Além Paraíba e, em 1907, internou-se no Colégio Anchieta, de padres jesuítas, em Nova Friburgo e não se sabe até que ano sua família ficou em nossa cidade.

JornaL a GAZETA DE 2 DE DEZEMBRO DE 1951
“E Barbacena, não me fala à alma como Porto Novo me fala, porque foi nele que a vida começou a ter sentido para a criança, que eu era então, e que Deus pusera neste mundo para cumprir uma missão, que, se tem sido, às vezes, de sofrimentos e agonias, nunca deixou de apresentar-se, também, sob aspectos de grandes consolações, bem superiores às manifestações da minha substancial mediocridade.
Enfim, nada quero prometer, para não faltar. Não veja, porém, no meu silencio, e na minha já tão prolongada ausência deste Porto Novo tão maior que o Porto Novo da minha meninice, senão medo de não suportar a saudade imensa e louca daquilo que se foi para sempre, e que nunca mais retornará.”
Dr. Heráclito Fontoura Sobral Pinto


Fonte: Adaptação dos textos da Revista Veja – 1991,“Barbacena – A Terra e Homem” de Nestor Massena, Sobral Pinto - A Consciência do Brasil de John W.F.Dulles e Arquivos da Igreja de Santo Antônio do Aventureiro-MG

Jazigo da Família do Dr. Luiz Sobral Pinto - avô do Dr. Heráclito Foutoura Sobral Pinto - Além Paraíba - MG





DOUTOR LUIZ SOBRAL PINTO - AVÔ DO DOUTOR HERÁCLITO FONTOURA SOBRAL PINTO

Dr. Luís Sobral Pinto, médico, nasceu por volta de 1818 no Estado de Pernambuco. Transferiu-se para a cidade do Rio de Janeiro, onde se casou com Cândida Rosa de Albuquerque Cavalcanti, filha de José Mariano de Albuquerque Cavalcanti, natural da Fazenda Pau Caído, em Santana, Ceara e Cândida Rosa de Melo e Albuquerque.

De seu matrimônio teve os seguintes filhos: Priamo Cavalcanti Sobral Pinto, Luís Sobral Pinto, Madalena Cavalcanti de Albuquerque Sobral Pinto, Amélia Sobral Pinto, Antônio de Albuquerque Cavalcanti Sobral Pinto e Cândida Sobral de Almeida Magalhães.

Provavelmente, era irmão do Dr. Manoel Sobral Pinto, natural do Estado de Alagoas, bacharel em Direito em 1834, pelo Curso Jurídico de Olinda (PE).

Dr.Sobral Pinto faleceu em Além Paraíba, Minas Gerais, no dia 19 de fevereiro de 1882, tendo sido sepultado no Cemitério da Irmandade do Santíssimo Sacramento.

Priamo Cavalcanti Sobral Pinto que nasceu em 8 de novembro de 1855, casou-se em santo Antônio do Aventureiro, MG, com Idalina Coelho Fontoura, filha de Fernando Gomes Caldeira Oliveira Fontoura Júnior e Gertrudes Pereira Monteiro Coelho e com quem teve os filhos: Heráclito Fontoura Sobral Pinto, Natalina Fontoura Sobral Pinto e Rubens Fontoura Sobral Pinto.

sexta-feira, 4 de junho de 2010

A EDUCAÇÃO EM ALÉM PARAÍBA

Por Mauro Luiz Senra Fernandes


Escola da Dona Minervina

A palmatória era o terror da meninada, especialmente nas sabatinas de tabuadas, quando os “bolos” eram distribuídos a granel. Bolos, varadas, puxões de orelha ou outros castigos, como passar a aula inteira de pé na frente da classe, com um livro aberto nas mãos. Isso quando a criança não era obrigada a escrever centenas de vezes – devido a um gaguejo ou a uma falha de memória – “devo decorar minhas lições até ser capaz de repeti-las corretamente”. E a maior parte do tempo passado na escola era gasto em repetições em voz alta, o principal “método” de ensino.

Com a mudança dos tempos, algumas escolas foram abolindo os castigos físicos e substituído-os por rígida disciplina. Surge, no começo do século vinte, uma nova pedagogia, em que a punição não mais se exerce sobre o corpo, mas sobre a “alma”, visando moldar o caráter dos futuros cidadãos. Nasce o tempo das suspensões de aula, do ficar de pé diante do quadro-negro, das listas de bons e maus alunos afixadas na parede.

Bons professores primários e músicos sempre se destacaram em Além Paraíba. Alguns eram as duas coisas: Firmino Silva, Vicente Serpa Duarte, Fausto Gonzaga, Manuel Batista Nunes de Souza lecionavam, tanto na cartilha, como na artinha.

De todos os professores primários nenhum consagrou-se mais do que Arthur Ferrão. Não era apelido – é nome mesmo ! Ferrão com todas as letras. Ele honrava as duas silabas. Inteligente, culto mas, sobretudo, enérgico como só ele. Estudante ali em sua escola não brincava porque a palmatória fazia bolhas nas mãos e os caroços de milho nos joelhos dos alunos, caso contrário, recebia uns bons puxões de orelhas.

Para aquele tempo, muito natural. E os pais gostavam. Ferrão ensinava mesmo, numa fama que só trouxe benefícios à cidade, a qual ganhou gente preparada cheia de saber, graças ao imortal mestre.

Desenvolvendo Educação


Colégio Americano, localizado no Bairro de São José

Escola do Maestro Firmino Silva - Vila Laroca

O ensino em Além Paraíba tinha conhecido dedicações nos esforços encetados através do Barão de São Geraldo, do Comendador Simplício José Ferreira da Fonseca, do Barão de Guararema, Cel. Luiz de Souza Breves, Cap. Vicente José Mendes Ferreira e outros interessados, inclusive, na fundação de um colégio local. Dentro dessa diretoria surgiu, em modestas proporções, o Colégio Americano, responsável pelas poucas inovações em matéria de educação e foi dirigido pelas dedicadas irmãs Araújo. Seu funcionamento restringiu-se a um pequeno período. Logo a seguir, foi criado o Colégio São José, de propriedade do Dr. Edelberto Figueira. Contando com um bom corpo docente, o dito educandário foi dando margens a uma justa aspiração de se transformar em um ginásio – dedicado ao ensino secundário. Eram seus professores – o Dr. Aristóteles Freixo Lobo (Promotor de Justiça), Fausto Gonzaga, Padre Cristóforo de Barros, o Dr. Edelberto Figueira (ex-Juiz Municipal) e as senhoras Joaquina de Almeida Santos Botelho (Pituta), Maria Luiza de Miranda e Claudina Mendes.

Em torno da idéia do ginásio, houve até mesmo uma campanha nos jornais da cidade: “Evolucionista” e “Gazeta de Porto Novo”.


Contando com homens de escol como Edelberto Figueira, Álvaro dos Reis Villela, João Paulo Teixeira Côrtes, Victor Henrique Galhardo, perfazendo um total de 95 subscritores, foi fundado o Ginásio Além Paraíba S.A., aos 22 de fevereiro de 1922.

Em sessão solene, foi eleito presidente o Dr. Alfredo Martins de Lima Castello Branco e diretor o Dr. Edelberto Figueira.

Com entusiasmo e abnegação, foi o prédio concluído, ainda naquele ano, pelo construtor português, Gustavo Ferreira da Cruz.

Com o correr do tempo, tornou-se indispensável aumentá-lo. Eis que surge, compreendendo a magnitude do problema, o casal Domingos de Andrade Villela e Dona Ormezinda Côrtes Villela, sanando a parte financeira.

Outros importantíssimos estabelecimentos de ensino surgiram: Escola Pública do Bairro das Oficinas, dirigido por Dona Joaquina Santos Botelho (Pituta); Escola Normal dos Santos Anjos; Grupo Escolar Dr. Castello Branco; Grupo Escolar Dr. Salles Marques; Lyceu Operário e Recreativo, mantido pela Estrada de Ferro Leopoldina; Externato Maria de Nazareth, dirigido pela Srta. Maria Marques, Colégio N.S. Aparecida; Colégio da “Dona Minervina”; e, em Angustura, o Grupo Escolar Barão de São Geraldo.
Primeiras turma do Grupo Escolar Dr. Alfredo Castelo Branco, com o primeiro diretor Prof. Fausto Gonzaga e da professora Sophia Martins do Couto da Gama
Professore e funcionários do Grupo Escolar Dr. Alfredo Castelo Branco
 
Alunas da Escola Norma dos Santos Anjos
Outras escolas surgiram, nos anos 60. Idealizada, pela grande educadora Sra. Else de Deus Brandão Pimenta Ferreira, foi a instalação da CNEG, hoje Escola Cenecista Professor Sérgio Ferreira; depois o Ginásio Estadual São José, liderado pelo professor Salvador Vieira de Menezes e, em 1973, foi inaugurada a Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras Professora Nair Fortes Abu-Merhy pelo professor e advogado, Dr. José Alves Fortes.



Momentos do antigo Ginásio Além Paraíba - atual Colégio Além Paraíba


Grupo Escolar Salles Marques

Antigo SENAI de Além Paraíba - mantido pela antiga Rede Ferroviária Federal

Momento cívico dos alunos do antigo Liceu na Vila Laroca - mantido pela antiga Rede Ferroviária Federal
Angustura, o Grupo Escolar Barão de São Geraldo


Adaptação dos textos de Nosso Século – Editora Abril e Octacílio Coutinho