terça-feira, 7 de agosto de 2012

HEROIS ALEMPARAIBANOS NA SEGUNDA GUERRA MUNDIAL


Por Mauro Luiz Senra Fernandes



Três expedicionários alemparaibanos dentre os quinze que tomaram parte na Campanha da Itália, na ultima grande guerra, não voltaram, e morreram em defesa da pátria, no cumprimento do dever e jamais fugindo do perigo iminente. 

CABO CLOWER BASTOS CÔRTES

Clower Bastos Côrtes, filho de Mário Vilas Boas de Figueiredo Côrtes e de Margarida bastos Côrtes, nasceu na Fazenda Serra Bonita, em Além Paraíba, aos 13 de maio de 1916. Era o primeiro de uma numerosa prole, tendo morrido solteiro, após completar 29 anos de idade. Iniciando seus estudos no Ginásio Além Paraíba, transferiu-se em 1931 para Juiz de Fora, onde ingressou na Academia de Comércio, cujo curso ginasial concluiu com brilhantismo, em 1934, tendo também cursado um Tiro de Guerra, distinguindo-se como bom soldado. Em seguida, matriculou-se na Escola Superior de Agronomia de Viçosa.
Regressando à Fazenda Serra Bonita, seu pai já idoso e cansado, resolveu entregar os negócios, o que foi bem pensado, visto que poucos anos depois invalidou-se totalmente em conseqüência de cruel enfermidade.
Foi surpreendido pela convocação militar em 1943 e apresentou-se  imediatamente às autoridades da 4ª Região Militar. Aprovado em todos os exames médicos, foi mandado para São João Del Rei e de lá para o Rio de janeiro, como componente do 11º RI. Incluindo na Força Expedicionária Brasileira, foi promovido a Cabo, pouco antes  de embarcar para Itália e destacado para “chauffeur”, dada a sua especialidade nesse setor. 
Fazendo parte do 2º Escalão da FEB, segui para a Europa, esperançoso de um dia poder tornar à Pátria e ao seio de sua família.
Atravessou incólume todo o período da guerra e todo cruel inverno, sem jamais ter sofrido um só acidente e muito menos uma enfermidade. Prestou, com seu “Jeep”, inestimável auxilio as autoridades militares, na Itália, conduzindo oficiais, munições, etc., durante o período da guerra e mesmo depois desta.
A vitória das forças aliadas foi encontrá-lo na árdua tarefa de servir às tropas destacadas no norte da Itália e, nessa missão, prosseguiu mesmo depois do término da guerra, até que, em 30 de maio, seu “jeep” o traiu lamentavelmente. Nas proximidades de Gênova, quando se achava a serviço, conduzindo dois oficiais e um sargento, o “jeep” que guiava, ao sair de um túnel, chocou-se com um caminhão inglês, trazendo como consequência a sua morte instantânea. 
Rapaz de dotado das mais belas virtudes morais, possuía a particularidade de atrair para si todas as simpatias daqueles que se acercavam de sua pessoa, encantados com as prodigalidades do se boníssimo coração. Foi um herói, porque morreu em defesa da Patria; foi um bravo, porque não se acovardou diante do perigo; foi um caráter retilíneo, porque não usou de meios indignos para fugir ao cumprimento do dever.

EXPEDICIONÁRIO MANOEL DE SOUZA – “CUCA”

Tudo que fez em vida para não ser mais que um alemparaibano. Um conterrâneo nosso, um operário nosso, que todas as manhãs – em meio de tantos e tantos – passava por nossas ruas, alegre, cantando por vezes, sorrindo, na mão direita o serrote, na mão esquerda – sobre o ombro – o martelo, a enxó e a plaina. No bolso da calça, um metro, um lápis. E na alma, e lá bem dentro do coração, a simplicidade, a modéstia, o agradecimento a Deus por ser assim como era. Não queria mais nada: saúde, fé e disposição para o trabalho. 
Vem a guerra. E poucos anos depois, o Brasil, essa terra cujos homens falam a linguagem da sinceridade e cujos espíritos somente dão guarida à hospitalidade, ao amor ao próximo, é violenta e inesperadamente ultrajado em sua honra. O clarim soa. Repicam os tambores. Levanta-se a juventude e parte para os campos de batalha além mar.
Cuca também foi. Era brasileiro. Orgulhoso do torrão onde nascera. Trocou a calça de zuarte pelo uniforme verde oliva. O martelo, a enxó e a plaina desceram para sempre o ombro esquerdo: o fuzil tomou-lhe o lugar. E ao invés de transitar pelas ruas calmas de sua pacata Além Paraíba, Manoel de Souza passou a palmilhar as cidades históricas da velha Itália, batidas e taladas pelo ronco dos aviões e dos carros de assalto, estremecidas pelo troar da artilharia e dos tacões das botas milhares e milhares de soldados.
Mas, lá no fundo, no amargo de seus sentimentos. Cuca continuava indiferente a tudo. Era a coragem. Era a disposição. Era a satisfação. Era a humildade. Era a confiança, que as balas inimigas não assustavam, nem a saudade da Pátria e da família quebrantava, sequer diminuía. Isso lhe dava audácia. Fazia-o zombar dos perigos cumprindo com o dever que tinha de ser cumprido. Porque era um soldado do Brasil.
E os dias foram. E os lances épicos da peleja vieram, um atrás do outro. E Cuca, o nosso Cuca bem amado, sintetizava, no frio, na devoção da causa, por um lado, a ansiedade de tantas mães, cujos filhos, ombreavam com ele na sagrada causa. Por outro lado Cuca espelhava a honra do precinha, herdeiro das virtudes de seus ancestrais, cientes do lema de Barroso.
Veio Monte Castelo. Não viremos esta pagina da história. Nestas linhas, dignas de uma óde de Homero, existe um capitulo escrito com letras de ouro, emoldurado de sangue. Grifada, uma palavra de quatro letras. Entre louros e palmas um nome: Cuca. Manoel de Souza. E o quadro é uma ponte que irá dar passagem aos carros de assaltos aliados. O inimigo esta hora está vigilante. E caem soldados e soldados. É preciso, porém, construir a ponte. Cuca aceita a tarefa. Os superiores, que o admiram, o adverte. Embora. E a ponte vai chegando ao final. Viga após viga. Cada martelada do carpinteiro alemparaibano, é o eco de um projétil alemão. De repente sibilou apenas a bala inimiga. E não houve eco. Porque o modesto, o simples, o pequenino operário de Além Paraíba, jazia por terra. Do peito escorria-lhe um fio de sangue. Na boca um sorriso. Porque os heróis, os grandes heróis não choram nunca, nem mesmo diante da morte. E tombam assim conforme tombou Cuca. Gloriosos. Desconhecidos, não obstante, merecedores do penhor da terra onde nasceram!”

CARLOS CÓCO MUCHINELLI

Carlos Cóco foi também um herói alemparaibano na Itália, no período da Segunda Guerra Mundial, viveu no coração desta cidade entregue ao labor e a colheita, contemporâneo de Clower Bastos Côrtes e Manoel de Souza e faleceu em combate.

Descendentes de imigrantes italianos, nasceu na Fazenda Ponte Nova em 9 de agosto de 1917. Era filho de André Salvador Cóco e Maria Muchinelli, neto paterno de Salvador Cóco e Pascoa Ideli; e neto materno de Maximo Muchinelli e Gissea Cóco.

Fonte: Raul José Côrtes Marques – Jornal A Gazeta - 1958


Final da Segunda Guerra Mundial,combatentes alemparaibanos Waldyr Filgueiras, Fuhad Fadel Sahione, Jairo Faria, Braz Povoleri e o jornalista Imbrahin Tebet (Jornal "A Noite"), setembro de 1945, no vapor "General Meigs"

Monumento em homenagem aos pracinhas alemparaíbanos na praça Coronel Breves


segunda-feira, 30 de julho de 2012

TESTAMENTO DE JOSEPHA MARIA DE ASSUMPÇÃO - 1865


Por Mauro Luiz Senra Fernandes


Josepha Maria de Assumpção, natural da Freguesia de Nossa Senhora da Piedade de Barbacena, nascida em 1777 e falecida em 1865, está sepultada no Cemitério da Irmandade do Santíssimo da Cidade de Além Paraíba, MG, filha de Francisco Ribeiro Nunes e Joana Maria da Conceição – pertencente a família Ferreira Armond, moradores na Mata do Quilombo, Barbacena. Foi casada com Coronel João Ferreira da Fonseca, nasceu em Prados por volta de 1767 e falecido em 1819.

 “Em nome de Deos, Trino e Uno, a quem firmemente creio.

Eu Josepha Maria de Assumpção, ainda a que presentemente me acho no estado de perfeita saúde, provem prevendo a morte como uma conseqüência inevitável da vida, senhora de mim e no gozo de meu perfeito juízo e entendimento, com conhecimento do que faço, vou proceder a este meu testamento e derradeira vontade, para ter o seu devido efeito, depois que eu morrer, pela forma e maneira seguintes.
Declaro que sou cidadã brasileira, honra de que muito me prezo, natural e batizada na Freguesia da hoje cidade de Barbacena, filha legítima de Francisco Ribeiro Nunes, e de Joana Maria da Conceição, ambos falecidos. 

Declaro que fui casada na face da Igreja com João Ferreira da Fonseca, de cujo matrimônio tivemos os filhos seguintes: José, Cândido, Thomaz, João, Marcellino, Simplício, Damaso, Maria Victória, Bernardina Carolina e Joana, e destes alguns já faleceras.

 Declaro que depois do falecimento do dito João Ferreira da Fonseca meu prezado marido se fez logo judicialmente inventário de todos os bens do nosso casal, procedeu-se as formal de partilhas, e a proporção, que meus filhos se foram emancipando, eu lhes fui entregando suas respectivas  legítimas paternas ...que em tempo ficarão delas inteirados, pagos e satisfeitos. Outro sim declaro mais ou menos, que eu observando, que não podia mais promover como dantes, os interesses de minha casa, apresentei de fazer o meu inventário e partilhar me em vida, digo, e repartir em vida com meus filhos, vivos e com os legítimos sucessores do que são falecidos, e com efeito ... mencionado tempo convoquei a todos, e eles comparecerão legal e competentemente autorizados para este fim fez se o Inventário de tudo quanto eu possuía então, foi tudo concisamente avaliado, e tirada a minha terra que reservei, e conservo em meu poder tudo mais foi igualmente repartido com meus supra citados filhos e herdeiros, aquém logo entreguei o quinhão que lhe coube, eles ficarão todos satisfeitos, pagarão me quitações, e o Inventário e partilhas foram firmes e valiosas no Juízo competente. Portanto o que vou me dispor neste testamento e do que me coube em terra. Desta dita minha terra pois satisfeitos os legados que eu aqui vou mandar que se façam, o resto que sobrar. Instituo dele por herdeiros, somente os meus filhos e netos  que eu vou indicar, e estes são: meu filho Thomaz, meus netos, filhos de meu filho Marcellino, já falecido, meus filhos Simplício, Damaso, Maria Victória, Bernardina Carolina e Joana, todos estes satisfeitos os meus legados, instituo como disse por herdeiros do resto de minha terra em parte iguais.

Declaro que sou Irmã Terceira da Venerada Ordem da  senhora do Monte do Carmo da Cidade de São João Del Rey, a cuja Ordem nada devo por quanto me vem logo  enviei e professei; o mesmo pratiquei com a irmandade do Senhor  Bom Jesus de Congonhas do Campo, de que igualmente sou Irmã, mas nada devo.
Ordeno que meu cadáver seja envolto no Hábito que ... da mesma ordem, que logo depois de meu falecimento meu testamento   mande dizer por minha Alma uma ou as Missas de corpo presente e poder mandar dizer comodamente, e assim se haverá em tudo mais que dá respeito ao meu funeral, o qual lhe encarrego de em tudo mais a sua disposição e arbítrios.

Ordeno que meu Testamento mande dizer cento e cinqüenta Missas da esmola costumada no Bispado; a saber cinqüenta pelas Almas de meus pais; cinqüenta pela Alma de meu marido; e cinqüenta pelas Almas de meus escravos.

Declaro que atualmente tenho mandado dizer Missas por minha benção, e pelas Almas de meus filhos falecidos, e mesmo pretendo fazer se dias me emprestar a vida pelas Almas de todos os meus parentes e bem feitores.

Meu testamenteiro pagará, se eu não pagar em vida, a quantia em que importar a Imagem da Senhora do Rosário, que mandei vir para a Igreja de Santo Antônio do Aventureiro, afim como também, se eu não pagar em vida, pagará os cem mil réis que eu prometi para as obras da mesma Igreja, que são da Sacristia e Adro.

Deixo a Capela da Senhora do Rosário do Curral Novo cinqüenta mil réis.

Deixo para meus afilhados Romualdo, Carolina Maria, Francisca e Firmina, filhos de Antônio Martins do Couto, a quantia de um conto de réis, digo, a quantia de um conto e seiscentos mil réis para cada um deles. Deixo igualmente a meu afilhado Marcellino, filho de Manoel Netto, um conto de réis. Deixo meu afilhado Cândido, filho de Manoel Alves Garcia, quatrocentos mil réis. Deixo a meu afilhado Carlos, filho de Damaso Ferreira da Fonseca, quatrocentos mil réis. Deixo a meu neto e afilhado Marciano, filho do falecido Marciano Ferreira da Fonseca, quatrocentos mil réis. Deixo a meu filho Damaso Ferreira da Fonseca em remuneração de trabalho e cuidados, que tem tido comigo, os meus escravos Manoel Criolo e sua mulher Florência.

Nomeio por meus testamenteiros em primeiro lugar, o meu filho Damaso Ferreira da Fonseca, em segundo lugar, o meu filho Simplício José Ferreira da Fonseca, e em terceiro lugar, meu filho Thomaz Ferreira da Fonseca, aos quais rogos queiram serem meus testamenteiros, substituindo-se um a cada outro, conforme a ordem de minha nomeação, e as que aceitar deixo ...e espaço de um ano para prestar contas em Juízo, e por este e autorizo para depois de minha morte, dispor de todos os meus bens ou parte deles , quando seja necessário, tanto em Juízo, como em particular para satisfazer a quanto tempo termina.

E nesta forma hei por concluído este meu Testamento e minha vontade e rogo as justiças do Império... seu inteiro vigor e cumprimento, embora lhe falte qualquer clausula, ou clausulas das em  necessário; pois todas ...as jugos , neste meu Testamento, que escrito a meu rogo, pelo Padre Joaquim Flausino Moreira, a qual depois de me haver lido e eu o julgar conforme deixei o assino.
Santana da Boa União, 5 de março de 1857"

Josepha Maria de Assumpção      

O neto e afilhado Cândido Augusto Ferreira da Fonseca - filho do Capitão Cândido e da
 Baronesa de Juiz de Fora
 
  Altar da Igreja do Senhor  Bom Jesus de Congonhas do Campo





sexta-feira, 13 de julho de 2012

BARONESA DE GUARAREMA - FRANCISCA DE SOUZA MONTEIRO DE BARROS E ELISEU VISCONTI




Barão e Baronesa de Guararema
 


Dona Francisca de Souza Monteiro de Barros, Baronesa de Guararema por seu casamento com seu tio materno, Luís de Souza Breves.

Era filha de Miguel Eugenio Monteiro de Barros e Maria Eugenia de Souza Breves. 

De seu casamento, não foi gerado filhos e segundo fonte oral, o Barão de Guararema deixou vários filhos na senzala. 

O Barão de Guararema foi um grande comerciante de café na capital do império, era filho de Luiz de Souza Breves e de Maria Pimenta de Almeida Breves e foi agraciado com o titulo de Barão de Guararema em 15 de junho de 1881.

A Baronesa era amante das artes e é considerada uma das primeiras mecenas da burguesia brasileira.

A Baronesa era uma pessoa muito doente e viajava frequentemente para a Itália para tratamento de saúde, numa de suas viagens, conheceu o futuro pintor Eliseu D’Ângelo Visconti e convenceu a sua família a deixá-lo a estudar desenho e pintura no Brasil.

Visconti nasceu na região italiana da Campânia em 30 de julho de 1866, filho de Gabriele D’Ângelo e Cristina Visconti, foi um pintor, desenhista ítalo-brasileiro e considerado um dos mais importantes artistas brasileiro.

Chegando ao Brasil entre 1873 e 1875, em companhia de sua irmã Marianella Visconti. Seu irmão Afonso e sua irmã Maria Anunciata já viviam no Brasil e seu irmão Tobias falecera de febre amarela, doença contraída aqui. Eliseu Visconti, desejou estudar música e em 1884, trocou a musica pela pintura no Liceu de Artes e Ofícios e na Academia Imperial de Belas Artes. 

Segundo seu filho Tobias, Visconti inicialmente se instalou em Além Paraíba, depois na cidade fluminense de Sapucaia, onde a família Breves possuía muitas propriedades.

 O Barão de Guararema faleceu em Além Paraíba, MG, aos 82 anos, no ano de 1910, sendo sepultado no Cemitério da Irmandade do Santíssimo. A Baronesa faleceu no Rio de Janeiro, em 5 de janeiro de 1899, sendo sepultada no Cemitério da Ordem do Carmo. 


Fazenda Castelo - Além Paraíba MG
                                                    Fazenda Castelo - Além Paraíba MG

 O menino Eliseu Visconti e sua irmã Marianella - 1880
 A maturidade de Eliseu Visconti - 1930


Réplica do pano de boca do Theatro Municipal do Rio Janeiro pintado por Visconti em Paris

sábado, 19 de maio de 2012

MIGUEL MADEIRA UM PIONEIRO DO TRANSPORTE EM ANGUSTURA


Por Mauro Luiz Senra Fernandes





Triste para toda Angustura e muito mais triste para sua família, foi o alvorecer do dia 18 de janeiro de 1968. As vibrações sonoras e cadenciadas dos sinos da matriz despertaram Angustura e, seus moradores, em sobressaltos, pressurosos acorreram-se às janelas, entreolharam-se, perguntando: quem teria morrido? E os sinos continuavam lugubremente, seus dobres plangentes quando, feriu o espaço, quebrando monotonia cadente dos sinos – a saudação cristã “Louvado Seja Nosso Senhor Jesus Cristo” pelas ondas sonoras dos alto-falantes da matriz, naquela hora matinal.

Angustura acorda-te para receberes, mais uma vez infausta notícia; nova que te sangrará como aquelas sete lanças, apunhalaram o Coração de Nossa Senhora das Dores – perdeste mais um dos teus filhos adotivos; Miguel Madeira não viverá mais entre teus irmãos; ele fora um cidadão exemplar, pai amoroso e extremoso avô, deixou mais uma grande ferida no seio da sociedade angusturense a sagrar. Todas as belezas das manhãs que Angustura se orgulha de possuir, se ofuscaram com as lagrimas que correram dos olhos angusturenses – prenuncio de corações feridos com o choque da notícia. 

Cabisbaixos, todos se recolheram ao recesso de seus lares dizendo: anteontem mesmo, vi-o, sentado no banco do Centro Telefônico, conversando com seus amigos e, satisfeito, correspondendo às saudações dos transeuntes – “boa tarde Miguel, que me diz do Porto Novo” – “sempre a mesma coisa – muito quente e tudo no mesmo lugar”.

Era assim que, mais de quarenta anos convivemos o Miguel do ônibus que nos deixou até a eternidade...
Miguel Madeira era natural de São Domingos do Aventureiro, nasceu em 1903 e era filho dos italianos Vicente Madeira e Angelina Lentino Madeira. Em Angustura, passou o resto de sua juventude, sua mocidade e parte de sua velhice; constituiu família casando-se com Maria do Rosário Couto (Niquinha), filha do português Alexandre Rodrigues Couto e de Luzia Lopes do Couto.

De seu casamento nasceram dois filhos: Wilson (Lêle), casado com Cely Vasconcelos Madeira; e Helenice, casada com José Francisco Ghetti.

Chegando a Angustura por volta de 1918, foi contratado pelo fazendeiro e engenheiro Dr. Pio Villela Pedras para trabalhar na construção da estrada que ligava Angustura até Além Paraíba. Logo após, montou uma empresa de ônibus que transportava pessoas e mercadorias juntamente com o seu irmão Antônio Madeira, uma linha que ligava Angustura até Além Paraíba e a outra linha que ligava Santo Antônio do Aventureiro até Além Paraíba. 

Foi contemplado com uma medalha, ao aposentar-se, por ter sido um dos primeiros motorista a carteira profissional do volante e pelas excelsas virtudes de bem servir às coletividades de Além Paraíba e de Angustura.  

  Estrada de Angustura por volta de 1918
Fonte: Adaptação do texto publicado na "A VOZ DE ANGUSTURA" – 30 de março de 1968

ANGUSTURA CENÁRIO DE NOTÁVEIS ACONTECIMENTOS HISTÓRICOS

Por Mauro Luiz Senra Fernandes 




Ana Margarida, Silva Jardim e o filho mais velho, Antônio
Acervo; Coleção Artur Cerqueira
 
Esta pitoresca Vila, dotada de uma natureza privilegiada, clima salubre, água serrana e cristalina, hospitaleira e sorridente, gente laboriosa, simples e religiosa – é o berço de cidadãos que têm ocupado postos de destaque no Município, no Estado e na Federação, gerou para seu orgulho um dos maiores jurisconsultos do país, cujos tratados de Direito são conhecidos e servem de normas para muitas comarcas das Américas e da Europa.

Os diletos leitores sabem a quem me refiro – Nelson Hungria – Além de seus filhos eminentes Angustura de outrora foi palco de visitantes ilustres. Dentre estes, destaca-se em primeiro plano, a honrosa visita do grande republicano Silva Jardim, em 14 de março de 1889, poucos meses antes da queda do Império.

Antônio da Silva Jardim, o grande republicano fluminense, em 1882, com apenas dezenove anos colava grau em ciências jurídicas e sociais pela Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo. Além de ser um tribuno de largos recursos retóricos, foi também um primoroso escritor.

Além de brilhantes discursos, pró advento da República, escreveu Silva Jardim: O General Osório, Critica de Escada Abaixo; Memórias e Viagens; Campanha de Um Propagandista; A Gente do Mosteiro; Idéias de Moço, etc.
  
Por ironia do destino, o extraordinário republicano, quando visitou a Itália durante uma erupção do Vesúvio, foi tragado impiedosa e tragicamente pelas larvas vulcânicas – dois anos antes de sua morte prematura ele visitou Angustura. 

Angustura foi no passado cenário de notáveis acontecimentos históricos.

 
Dr. Nelson Hungria


Fonte: A Voz de Angustura - texto adaptado do Professor J.B. Vidal

quinta-feira, 19 de abril de 2012

ALÉM PARAÍBA - ADELAIDE CARIJÓ

Por Mauro Luiz Senra Fernandes




Através de fonte oral, ela nasceu aproximadamente no início do século XX, na Fazenda da Serra Bonita. Pela sua aparência, demonstrava ser descendente dos índios Purís que desapareceram de nossa região no período de nosso povoamento.

Foi segunda esposa do lavrador Sebastião Maria que faleceu acidentalmente, caindo de cima de uma mangueira, em uma chácara pelos arredores do Bairro da Saúde.

Não se sabe a partir de quando, ela atravessava as ruas de Além Paraíba em busca de esmolas ou de um prato de comida; sua miséria era acrescentada pela falta de respeito à sua história. Era abordada por moleques e adultos, com insultos, deboches e apelidos, como o sonoro: “Sacode Carijó”, “matou o marido derrubando da mangueira”, e ela respondia com um grande praguejar e sofrimento.

Ela teve alguns filhos, entre eles: Adão e José, que durante certo tempo de suas infâncias a acompanhavam; mais tarde foram enviados para alguma entidade de “meninos abandonados”.
Dona Adelaide ficou só, resistindo a insultos pela cidade, até ser internada no Asilo Ana Carneiro, na Vila Caxias, onde viveu seus últimos dias de vida.

A sensibilidade da poetiza e professora Alice Mara de Araújo Teixeira Côrtes, numa sutileza amável descreve, resgatando através de versos, a pureza e a beleza de Dona Adelaide – a “Carijó”.

“VELHA DO ALÉM”

Alice Mara de Araújo Teixeira Côrtes

Andando descalça pelas ruas nuas
que são caminhos do rio
sorrio
Falando sozinha,
vestida com saia rodada
de barra em embabadada
blusa sobre blusas
no pescoço lenço e flores
na mão a manga carlotinha
colhida no quintal da vizinha – saboreio.
No momento estou em frente ao correio.
Hoje da ponte do Porto já olhei
o rio Paraíba passando, deslizando
e não havia ninguém mais o olhando.
É verão quente...
à noite tive dor de dente;
para passar tomei café bem quente.
Sinto o perfume do manacá
ao divagar
resmungo, matraqueio, conchilo
sou louca...
fiquei louca...
que magoa ter que carregar
a lata d’água morro acima...
eis a minha sina...
sou velha,
velha pobre,
velha louca
há tempos fiquei louca
perambulo pelas ruas
que são suas
mas vivo em um mundo que é só meu.
Ando. Ando falando.
Vou passando.
Penso andando:
- Detesto aqueles moleques que brincam
de pique do outro lado da calçada
e logo os escuto a gritar:
Sacode, Carijó... Carijó...
O som ecoa no ar
janelas se abrem de par em par
nos patamares corpos se debruçam
rostos aparecem, se divertem
carecem de alegria
todos riem, caçoam, entoam
o hino: Sacode... Sacode... Carijó...
Sacode... Sacode... Carijó
O saco sujo seguro firme.
Corro em direções
ajeito a bolsa pendurada de lado
o cajado se lança no ar
esbravejo xingamentos
todos, num só momento...
Meninos correndo.
minhas mãos tremendo
dispersos os perversos,
carros passando
todos olhando
flui: - Filhos da p...
Da corrida canso e longe escuto
o eco já perdido
Jóó...Jóó... Jóo...
Será que chamam aquele amigo de Jesus
que o padre falou na Igreja!
Sou velha...
Sou velha louca...
Velha irritada...
Magoada, esquecida...
- Que importa o instante que passa
faz parte do cotidiano
durante todo o ano.
Agora já é outra hora
o sol está a pino
nem sei que o momento existiu
apenas quero voltar a andar.
Pensando... cochilando...
Conversando... saboreando a esmola tropical
ouvindo o estridente repetir do pardal
na praça da estação abandonada.
seus filhos não fazem nada
sou a tola... sou a tola velha louca...
sou a velha cochichando baixinho
a passear pelo refúgio de sonhos só meus,
convivendo com o seu mundo
pelas ruas do Além.

Publicado no Informativo "NO TEMPOS DE DANTES" 24 de abril de 2007

segunda-feira, 16 de abril de 2012

ALÉM PARAÍBA NA REVOLUÇÃO DE 1930 – Testemunha: Pastor Almerindo Luiz Pereira

Por Mauro Luiz Senra Fernandes



Testemunha ocular da Revolução de 1930, tal qual ela aconteceu em Além Paraíba, o Pastor Almerindo Luiz Pereira conta os dramáticos acontecimentos dos quais teve a oportunidade de participar nesta cidade, naqueles dias históricos.



Na história do Brasil não há o registro de certos fatos acontecidos no âmbito municipal, alguns dramáticos e outros pitorescos. Pelo fato de Além Paraíba não dispor dos modernos meios de comunicação, não era fácil saber o que estava acontecendo em Belo Horizonte ou no Rio de Janeiro. Lembro-me que em Porto Novo somente uma família possuía um aparelho de rádio, assim mesmo muito sofisticado, de propriedade do Dr. Hugo Floriano Motta, engenheiro e capitão da reserva do Exercito Brasileiro. Na ocasião, o Dr. Motta, assim conhecido, era o representante da Agência Ford na cidade, e, através do rádio, ele se inteirava de tudo que estava acontecendo no País. Daí concluirmos que o movimento revolucionário, começou na mesma data que eclodiu no Rio Grande do Sul, isto é, aos 2 de outubro de 1930.

O choque inicial em confronto de armas em Minas Gerais foi no sul do Estado com as forças legalistas do estado de São Paulo. Mais para o norte, os choques armados aconteceram nas fronteiras de Minas com o Estado do Rio de Janeiro, especialmente nas cidades limítrofes, como é o caso de Além Paraíba.

Com o movimento por eclodir, mas acompanhado de perto pelos partidários da Aliança Liberal na cidade, deu-se o seguinte fato: no parque da estação da Estrada de Ferro Central do Brasil, hoje Rede Federal, havia alguns vagões fechados, carregados de material bélico do partido do governo. Como se fosse um filme de bang-bang, num piscar de olhos, o maquinista de manobra saiu em disparada arrastando os referidos vagões para retirá-los das mãos dos revolucionários. Vigiados como estavam, não foi para o Dr. Motta tomar o trem já em movimento e, andando por cima dos vagões com uma arma em punho, forçar o maquinista a retornar o comboio para o parque da Estação e efetuar a sua prisão; estava, assim, iniciado o movimento revolucionário em Além Paraíba. Nos torreões da Estação da Central do Brasil e no hotel próximo à fabrica de Tecidos, instalou-se o estado maior da revolução. A bonita e imponente sala do agente local, no primeiro torreão, toda adornada de metais luzentes e com as suas lindas bandeira, foi foi transformada na sede do alto comando revolucionário, liderado pelo comandante Americano Freire. Muitas famílias importantes da política de Washington Luiz desapareceram da cidade temendo represarias. Nesta altura, o subscritor desta reportagem tinha 16 anos e trabalhava como aprendiz de ajustador mecânico na Estrada de ferro Leopoldina. Um engenheiro do exército brasileiro, cujo nome não me veio na memória, comandou os operários especializados, requisitados pela revolução, bem como as dependências das oficinas, para usinagem de peças e consertos de armas, como fuzis, com defeitos mecânicos.

Três canhões projetados pelo referido militar do exercito foram fabricados e montados pelos operários das oficinas da Leopoldina. Dos três canhões, um deles, o de maior precisão, tinha um alcance mais longo e podia fazer explodir seu petardo no alvo. Lembro-me de que eu tive a tarefa de beneficiar e montar a alça da mira, com alcance aproximado de três mil metros, ou seja, três quilômetros. Fazíamos horas extras até vinte e quatro horas, durante um período de quinze dias, consecutivos e, até hoje, nada recebemos das horas extras, por lei, dobradas, das autoridades que assumiram o poder. Era urgente uma artilharia pesada, porque as forças do governo estavam bem protegidas pelas montanhas do estado do Rio, e, especialmente, São José, foi durante castigada pela fuzilaria que vinha do outro lado do rio. As locomotivas a vapor eram duramente atingidas quando passavam por Melo Barreto, chegando às oficinas com o tênder furado, esguichando água por todos os lados.

Com o inicio da revolução, todos os trens que iam para o Rio de Janeiro ficavam retidos em Porto Novo, sua carga, com leite, aves, ovos e tudo mais, era propriedade da revolução. Nas ruas de Porto Novo qualquer cidadão curioso e ocioso era preso e intimado a retirar areia do rio e preparar trincheiras com sacos de areia, que eram amontoados na boca da ponte de Porto Novo e no interior dos carros de passageiros onde, das janelas, respondiam ao fogo inimigo. Meninos que vadeavam pelas ruas eram intimados a trabalhar no quintal do hotel da Estação e tinham a missão de abater e depenar as aves que abasteciam a cozinha do rancho. Todos os negociantes da cidade não podiam negar, aos que queriam identificar-se com a revolução, a fornecer pedaços de pano vermelho que eram usados no pescoço como sinal de adesão ao movimento.

Nesta altura entra em cena o meu velho pai, de saudosa memória, Sr. Joaquim Luiz Pereira. Com a fuga dos donos da fábrica de tecidos, da política contrária, ficou a Fiação de Tecidos Além Paraíba sem direção e logo paralisada. Quando o alto comando se informou que o tão mestre de tecelagem tinha capacidade profissional para movimentá-la, o intimou a comparecer perante o Comandante Americano Freire. As intimações assustavam todo o povo. Lembro-me que eu, muito assustado, acompanhei meu pai pensando que ele seria preso. Ao contrário, foi tratado com muita distinção e ficou intimado a movimentar a fábrica a serviço da revolução. Por determinação superior, ela deveria tecer panos para os uniformes das tropas na cor verde oliva, brins para roupa de cama e ainda montar caminhões blindados com chapas de aço e com grossas camadas de algodão. Isso porque o comando revolucionário já havia preparado um plano de ação para atravessar o rio e atacar o inimigo fortemente entrincheirado nas montanhas. Recordo-me do meu velho pai assistindo aos atiradores, com fuzis em punho, testando a blindagem, e sua alegria pelo êxito alcançado.

Heróis de Além Paraíba Tombaram no Campo de Batalha – a primeira vitima, dos filhos da cidade, foi o jovem Oswaldo Lopes, de saudosa memória, conhecido na intimidade como Bilú, ajustador mecânico da Leopoldina e reservista do Tiro de Guerra local.
Sua morte se deu quando combatia o inimigo nas trincheiras de um vagão de passageiros em São José, sob forte fuzilamento do inimigo. Seu sepultamento teve honras militares e a cidade ficou de luto com a perda de um dos seus filhos. O hino oficial da revolução, “João Pessoa o seu vulto é varonil...”, teve a partitura e orquestração feitas em doze horas, pelo então maestro Firmino Silva, meu bondoso professor de música, para tanto, usando disco, com referida gravação. À tarde do dia seguinte a Sociedade Musical Carlos Gomes executava, nas solenidades fúnebres, no pátio da estação, o referido hino.

Entre os soldados, Eduardo Franco - Monêgo.

Outra vitima foi a do operário de caldeiraria conhecido pelo nome de João Branco, morto em São José, quando intimado pela revolução, retirava areia nas margens do Paraíba. Foi outra grande perda que enlutou novamente a cidade, pois se tratava de um grande profissional, honesto e trabalhador.

No palco das operações apareceu um militar de nome tenente Jorge, oficial do exército muito corajoso, que tomou a iniciativa de atravessar para o estado do Rio, com um forte e bem armado contingente de soldados. Do lado de Minas a gente ouvia a fuzilaria e o matraquear das metralhadoras no combate que se tornou decisivo, para acabar , de uma vez, com os constantes perigos para as famílias, que tinham as suas casas para a margem do rio. Foram feitas muitas prisões das tropas fiéis ao governo, e um sargento, que resistiu a voz de rendição, foi morto no seu posto. O tenente Jorge foi recebido com honras de herói, com festas e bailes nos clubes locais. Outro grande acontecimento foi o do canhão maior desenhado e fabricado nas oficinas da Leopoldina. Esta arma pesada já tinha sido testada e deveria logo ser enviada para a estação de melo Barreto, tendo como alvo a estação da Leopoldina de Paquequer, no Estado do Rio, onde se havia entrincheirado um forte contingente inimigo com fuzis e metralhadora de longo alcance. A primeira arma pesada fabricada em Além Paraíba foi colocada em cima de uma prancha de estrada de ferro. Depois da cerimônia da benção, pelo padre local, esta arma conseguiu, após vários disparos, atingir e destruir o prédio da estação de Paquequer.

Diante deste sucesso foram feitas vária prisões dos cangaceiros, como eram chamados na época, que se renderam às forças da revolução. No outro dia, a multidão curiosa procurava ver os vagões de conduzir bois, cheios de homes barbados e cabeludos aguardando o destino que lhes seria dado. Cremos que voltaram para as suas famílias logo que terminou a revolução, pois todos os lados eram lavradores e operários do estado do Rio de janeiro apanhados a laço para combater ao lado das forças legalistas.

Um Dia de Pânico e de Aflição – pouco antes da rendição do presidente deposto, já marchava para atacar Além Paraíba um forte contingente do batalhão dos caçadores do Exército Brasileiro, uma força com armas das mais modernas e pesadas da época. Este seria o dia mais trágico da cidade; se esse ataque se consumasse. Além Paraíba seria arrasada. O alarme foi dado pela manhã, mais ou menos às nove horas, com o repicar dos sinos das igrejas e apito das oficinas da Leopoldina. A ponte de porto Novo foi minada em poucas horas; seria dinamitada e colocada pelos ares. Era na época a única ponte que ligava os dois Estados, onde passava todo o tráfego da estrada Rio-Bahia. Todos os moradores das proximidades tiveram que deixar as suas residências. Soldados espalhados pela cidade tomavam providências para deter a invasão armada. Um dos espetáculos mais impressionantes era contemplar as famílias subindo em desespero, com crianças e velhos, para os morros, se embrenhado nos matos. Em Porto Novo subiam pelo pasto do Pagano, hoje ligado ao morro da Conceição. Na Vila Laroca subiam pelo morro São Geraldo e para o Adãozinho, hoje Vila Caxias. A mão de Deus se fez sentir nesta aflição, e podia se ouvir, como clamor do povo de Deus, na caminhada pelo deserto: “Elevo os meus olhos para os montes: de onde me virá o socorro? O meu socorro vem do Senhor que fez o céu e a terra”.Salmo 121:1. E este socorro logo se fez sentir, quando o comandante das tropas invasoras, olhando do alto do Estado do Rio, viu que seria desumano bombardear uma cidade aberta, e, nesta indecisão, aconteceu o inesperado. Exatamente, neste dia, 24 de outubro, acabava de ser deposto, no Palácio do catete, no Rio de Janeiro, o presidente Washington Luiz Pereira dos Santos. Estava, assim, terminada a revolução.

Quando visto Além Paraíba, em minhas peregrinações, um dos primeiros passeios que faço é ir até a ponte, e, relembrando o seu passado, digo baixinho a esta importante relíquia histórica de nossa cidade, que apesar dos longos anos, centenária mesmo, ainda continua ligando os dois Estados: “Por um pouco você ia para os ares...” Às vezes dá vontade de olhar e procurar, nos seus vários ângulos, para ver se não esqueceram de retirar alguma banana de dinamite que a poriam pelos ares.
Finalmente o Imprevisível – “Além Paraíba é abalada por uma grande catástrofe” eram as manchetes dos jornais.

Eram exatamente 15 horas do dia 3 de dezembro de 1930. Um grande estrondo, de proporções catastróficas, ecoou na cidade. No momento, eu estava nas oficinas. A Leopoldina deu os três longos apitos de socorro. Todos os operários saíram correndo em direção a Porto Novo Os bombeiros da Leopoldina, treinados como eram, partiram com a maquina especial, já com a pressão de vapor para funcionar de imediato, com mangueiras e tudo mais, para prestar os primeiros socorros, isso porque o incêndio ameaçava todo o quarteirão. No caminho íamos encontrando pessoas feridas em estado desesperador, sendo conduzidas em padiolas, para o Hospital. Chegamos ao local; dois prédios tinham sido demolidos com a violência da explosão. Um deles era do Banco Hipotecário e Agrícola do Estado de Minas Gerais. O cheiro de carnes queimadas era insuportável. Que quadro terrível! Na rua, em frente ao local da explosão, vejo um homem morto, o carroceiro, e um burro com o pescoço decepado, ao lado de uma carroça em pedaços. Os estilhaços das portas de aço mataram muitas das pessoas que passavam na hora pelo local. Na fábrica de tecidos onde trabalhavam o meu pai e mais três irmão, foi impressionante o desespero. Com o deslocamento do ar, provocado pela explosão, todos os vidros, não só da fábrica de tecidos, como dos torreões da estação e de todos os prédios que distavam do local, num raio de quinhentos metros, foram estilhaçados. Pensando que fosse a caldeira da fábrica de tecidos que havia explodido, entraram em pânico moças e senhoras aos gritos, algumas com desmaio, num clima de tensão e desespero.

Com o trabalho incessante de centenas de operários, dia e noite, removendo os escombros, iam sendo retirados os cadáveres, alguns irreconhecíveis, pelo estado que ficaram com o impacto da explosão. Um militar de alta patente do exército, que estava assentado próximo à carga de dinamite, juntamente com a sua esposa, desapareceram. Viam-se, na cidade, repórteres de todo o Brasil e das agências internacionais de notícias. Segundo informações de supostas causas, afirmaram algumas das pessoas, na época do acidente, que a explosão foi causada pelo fechamento de uma caixa de madeira, quando uma banana de dinamite foi detonada pela ponta de um prego que se desviou da base do caixote. A carga de dinamite estava sendo devolvida aos proprietários de pedreiras, material bélico que não tinha sido usado nos dias da revolução. Balanço da tragédia: vinte e nove pessoas, de ambos os sexos, perderam a vida tragicamente e outros tantos ficaram deformados e inválidos. Muitos corpos ficaram “insepultados”, porque desapareceram com a explosão, sendo alguns atirados no Rio Paraíba e seus fragmentos arrastados pelas águas. No dia seguinte assistimos às cerimônias do maior cortejo já realizado em todo o Estado de Minas Gerais.


Fonte: Jornal Estado de Minas